Um dia, de cabeça ocupada numa possível compra e deveras favorável ao seu bolso, caiu nas escadas e partiu o pescoço. Morreu. Poucos lhe velaram o corpo e poucos mais lhe apareceram no enterro. Diz-se que nunca soube o que era uma pequena coisa. Uma daquelas - das melhores.
Tudo está em contagem decrescente e hoje dei comigo a pensar nisso. Lembrei-me que daqui a dezasseis anos terei cinquenta. Foi aí que percebi que enquanto piscamos os olhos um par de vezes, já nos passaram imensas coisas ao lado, e às quais nem demos a devida importância. Nada que não se tenha já pensado. Mas desta vez foi diferente. Assim, decidi ver as coisas ao contrário, e em vez de encarar tudo como uma caminhada para o seu fim, decido encarar tudo para o seu início. É isso. Baseio-me em contagem crescentes. Falta pouco para tudo, mas esse tudo, está todo aqui. Aqui e agora. Agarro-me com as máximas forças ao que está à minha volta, sem pensar no que me resta, mas sim no que ainda está para vir.
Pudesse, por vezes, o meu mundo residir debaixo de um cobertor quente sem qualquer janela para o exterior...
Admirar...
Enaltecer....
Subir....
Re-definir...
Nunca retroceder e temer...
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Criar. Seja o que for!
Um sorriso
Um quadro
Um beijo
Uma flor
Uma alma
Criar. Tudo. Uma e outra vez.
Como
HUMANOS
Só para que conste: no regresso, o conteúdo deste blogue e do Alpendre irá tornar-se sinuoso e pesado. Acho que me fica bem "avisar" os 3 leitores que aqui passam diariamente.
Até lá... Boas festas. Empanturrem-se e fiquem mal-dispostos. Ah! Não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo que engorda, mas sim, o que se come entre o Ano Novo e o Natal, sabiam?
Louvado seja o Senhor nas alturas!
Acidez
Recorte: A porta
Infinite Horizons
"Be your own bomb" Bitch!
De manhã
E como costumo dizer
{............}
I say
that you can tell a lot about someone's character just by the hand shake...
Seguir a onda
Da grande arca
Assassino
Recorte: Benedita e Augusta
Recorte: At one single note from heaven
Os dias do início

Encantam-me bastante
Às voltas
À noite
"The astonishing urbana fall"
Descolagem
Se ao menos eu soubesse que este sangue, este meu sangue que carreguei até aqui e que agora se derrama, não me roubaria as minhas histórias – se ao menos eu soubesse -, poderia tentar por uma só vez que fosse ser feliz. Talvez pudesse – vocês sabem – aspirar à minha eternidade. Serenamente - penso. Leva-me em rasto lento e cadente os dias, tudo o que agora de mim sai. Mas poderia, meu Deus, não ser tão lenta esta morte que me urde?
Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Apenas fica. Desfeito – mastigo – para ser esquecido.
E continuo aqui; olho para o meu corpo, jogo de pescoço, pernas, braços, mãos e dedos que desfiaram com destreza, mas já não o reconheço de ser encarnado noutro tempo. Pequena rapariga de sonhos gigantes - caramelos que se saracoteavam delicadamente, envoltos num manto de saliva, apenas e só, abrigo de boca desejosa de vida a conhecer. Neste tempo, este que não meço, cada dia desvela uma romaria dolorosa sem lei nem passo certo, e descobre outros dias ancorados, já sem nome ou forma, no pó de um canto recôndito qualquer que não sei saber visitar. E, é assim que os sinto. Escorridos das entranhas.
Noutro esgar, não mais sóbrio mas que me atrevo enquadrar, vem até mim a criança que esfolava os joelhos nas calçadas de pedras brancas e polidas, que um sol de Agosto lambia avidamente. Não me sinto cheia, não me concebo e por este solene engano de mim, devo estar a esvair-me.
Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Afligem-se os cheiros desses dias, dias roubados a uma morte de cristal frágil e silenciosa de sentidos. Estremeço. A minha menina – sussurrava a minha mãe. Mãe - aceno perpétuo deste meu Deus impressão de luz. Por aqui fico à espera. De um prolongamento. De uma corda que se estique. Fico. À espera que numa hora súbita pendurada dos céus, se esgueire a ilusão de cor em ondas vítreas, e que pouco a pouco, a vontade de resgatar a vida, descubra se teriam sabor as lágrimas daqueles que me amavam quando se me chegou a hora de partir. Nunca morri. Apenas cresci. Mas não digam a ninguém porque é segredo e, os segredos são como rios de sombras numa tela perdida de uma parede num lugar qualquer. E lá, lá ninguém mos rouba. Lá... são todos meus.
Good Vibes
Se o regresso depender de escrever bem, então estas podem vir a ser umas férias permanentes. Se entretanto se processar algum milagre, e eu for abençoado com o dom da escrita, volto em Setembro. Se não se der nenhum milagre, volto na mesma. Resignado, no entanto.
Vou ali apanhar umas... volto já.
Inesgotável
Providence
E, é mesmo assim.
Duas pontas soltas que se impugnam, duas pontas que, imóveis e imponentes, relegam o observador para os confins de mim. Algures, ele contorce-se. Com dor. Rosto pálido e esbatido. Nem ele, inquieto contudo, se transpõe nessa outrora proeminente ousadia. Depois, passado o momento de ressaca, de confronto com a realidade, proclamo que há sempre diversos prismas, diversas arestas a que se arrisca deslizar, e que oferecem aquilo que sabes ser teu. A tua identidade, ainda que, fora de um contexto plausível. Imparcial. Ou não – suspiro. Quem sobre elas - as arestas - se poderia estender está em óbvio sofrimento, preso talvez, numa dessas pontas de fita solta ao vento. Por isso, por lhe ser difícil a permanência, tenta, se é que se possa descrever esta acção dessa forma, equilibrar-se. Céus – que ideia a minha. Tenta, é certo. Como pode.
E, é mesmo assim.
Depois, há ainda – uma vez que me é conferido o poder de imiscuir -, a noção de saber que existem bocas que, ainda que fechadas e seladas, dizem mais do que algumas que se escancaram. Palavras e mais palavras de quem não se entende a si mesmo. O que poderia eu ser sem tudo isto? Tudo o que se rege igualmente sem esse sujeito que me surge sem cronologia lógica? Então, em que dito por não dito, me fico?
Lá fora, corre a vida suave e subtil. Com a morte que desfia na maior das serenidades. Os rios límpidos que moldam pedras à mercê da sua passagem. Pedras que, devidamente estabelecida a posição de miragem, se cingem a cores de aguarela desbotadas. Lá fora, há gente que suspira, há gente que se lamenta e há gente que sorri. Aqui dentro, os ponteiros giram caducos mas sempre precisos e preciosos. Dizem que tudo o que se solta – haverá quem saiba porque o diz – volta a unir-se. Que este conjunto, para quem te é exterior, nada mais será um esboço indigno dessa designação. Resta no fim, disso ninguém desconfia, um belo e patético fato idiota que nos é colocado por força de mão e punho alheio.
E, é mesmo assim.
Ali. Assim.
Nas graças desprendidas e fáceis. No desfile inútil do que é - dizer-se vivo.
Amigos e amigas,
Dúvidas daquelas que sobressaltam o espírito e que não vos deixam dormir, elogios daqueles mesmo muito bons e que toda a gente gosta, linchamentos daqueles mesmo muito lixados e que ninguém gosta, perguntas às quais não saberei responder, e críticas que custam a encaixar, deverão ser remetidas para a caixa de correio indicada no meu low-profile. Não prometo resposta em tempo real. Imaginário, talvez.
Vá lá não chorem... já viram o tempo que não vão perder?! Assim vai sobrar mais tempo para as coisas realmente importantes da vida, como por exemplo: passar a ferro, limpar o pó, polir o carro, fazer sopa, tirar os pontos negros da cara, dar de comer ao periquito, comprar candeeiros, descolar uma pastilha da sola do sapato, regar as flores, fazer ponto cruz, ver resumos de jogos de futebol da semana passada, ligar aos avós, mudar a capa do edredon, tirar o bolor do tecto da casa de banho, fazer festinhas ao cão, dar beijinhos, cravar massagens, usar preservativos... Eina - tantas coisinhas boas!
Oh Foda-se! Divirtam-se!
Que a vida é mais do que tudo isto.
Que a folha branca se troca por outra colorida.
Que nem sempre há a crucificação de todas as coisas no fim.
Que a mente dorme enquanto o corpo permanece desperto.
Que tudo é como um longo novelo de cor e de vida que tem de se gastar.
Que há um ponto onde tudo converge, onde tudo se conjuga.
É este.
E, é o da saída.
O meu amigo nunca me julgou. O meu amigo sempre me aceitou. O meu amigo está sempre lá. Aqui. Lá. Zé, ouves-me? És tu. Esquece aquelas lamechices que se dizem, mas que não deixam de ser verdade e que ficam sempre tão bem. Esquece tudo isso. Estas palavras não são para ti. São para quem é do teu tamanho - são para o mundo.Fotografia: Cláudio Pinto
Cabeleireiro embaixador da Matrix.
Presidente da Assembleia Geral da Associação Nacional de Cabeleireiros.
Autor da rubrica "José Ribeiro Cabeleireiros" do programa Moda Portugal, transmitido pelos canais internacionais da RTP.
Cabeleireiro oficial da Expo Casamentos.
Formador de especialização de Cabeleireiros.
Autor de crónicas em várias revistas de moda.
Conheçam-no aqui.
"José Ribeiro Cabeleireiro penteia o mundo inteiro". Só tu, Zé... Só tu.
Hoje, apresento os famosos (apenas no seio da minha família-cobaia) ovos "Superfly T.N.T" à Lorenzo. A receita não é totalmente original, porque devo ter aprendido em algum lado a rechear os ovos, mas não me lembro onde e muito menos como. Todas as vezes que faço esta receita, ela é como uma espécie de vírus em mutação - sempre diferente. Esqueçam a silhueta 86-60-86-pau-de-virar-tripa, porque estes ovos são autênticas descargas nucleares de calorias. Aceitem a sugestão e nunca se esqueçam de que os homens, bem lá no fundo, ou mesmo bem à superfície, gostam é de curvas e algo para agarrar que não ossos. Resta-me salientar que, eu nunca ligo a quantidades porque não gosto de estar preso a números e também, porque as quantidades inibem a minha capacidade de improviso.
Ingredientes:
- Ovos (a quantidade é à escolha de cada um - eu como sempre 3, e no dia a seguir fico agarrado ao fígado a gritar - "Nunca mais como aqueles ovos!")
- Salsichas (podem ser de aves, para quem não gosta de gripes-alguém-vai-lucrar-com-as-vacinas)
- Chouriço (pode ser de soja, para quem não gosta de gripes-alguém-vai-lucrar-ainda-mais-com-as-vacinas)
- Cogumelos frescos (é conveniente lavá-los para tirar-lhes aqueles pedaços pretos de não-sei-que-raio-de-terra-é-esta-tão-escura)
- Cebolas (quanto mais me fazem chorar, mais gosto de as comer)
- Alho (eu mato vampiros com o meu hálito)
- Louro (esqueço-me de que o pauzinho do louro é cancerígeno - hahaha! - amanhã já dizem que previne uma cabazada de doenças)
- Sal q.b (este quanto baste parte-me sempre todo; quanto é isso? Quanto baste?)
Pensamento que me atravessa a mente durante a preparação dos ovos: Vocês sabiam que segundo os Cardiologistas, os portugueses ingerem em média, cerca de 13gr de sal a mais por dia do que o recomendado? E Amanhã? Que t-shirt é que hei-de vestir? Adiante.
Confecção:
Depois de cozidos, cortam-se os ovos ao meio no sentido longitudinal e retiram-se-lhes as gemas cozidas. Entretanto, em pânico, porque como bom homem que sou (não consigo fazer muitas coisas em simultâneo) faz-se um refogado de cebola em azeite (juntar alho, louro, sal e outros temperos ao gosto de cada um). Assim que a cebola estiver refogadinha e loirinha, junta-se-lhe os cogumelos frescos, o chouriço e as salsichas, tudo cortado aos pedaços (em cubinhos fica bem a nível estético). Acrescenta-se a esta argamassa as gemas dos ovos, também aos pedacitos. Mexes-se bem e pronto - temos o recheio feito.
Com uma colher ou à mão (fica sempre bem) coloca-se o recheio nas metades dos ovos cozidos onde era suposto estarem as gemas. Compacte-se bem o recheio. Unem-se as metades dos ovos já recheados e envolvem-se com farinha, ovo mexido e pão ralado. Há quem diga que é assim que se fazem os panados. Levam-se a fritar et voilá - prontos a serem servidos.
Sugestão de acompanhamento: Ervilhas com bacon em refogado de cebola com Paprika AKA Colorau e o que sobrar do recheio (a mim sobra sempre - o inconveniente de não me guiar por quantidades certas).
E assim se faz uma refeição mais poderosa do que o próprio Ovomaltine!
Bom Apetite e boa sorte com o médico que vos atender nas urgências do hospital mais próximo. Uma lavagem ao estômago nunca fez mal a ninguém...Oh vá lá...dos fracos não reza a história.
Mail recebido de última hora e que nada tem a ver com a receita, ou se calhar, até tem...
Pertinente - diz o chefe Lorenzo. E sim, amiga J - irónico.
Espero-te aqui. Sobre as ondas que se quebram no mar. Espero-te aqui. Que o teu corpo suba por mim e que o meu corpo suba pelo teu. Que me envolvas com o teu olhar, que me segregues as palavras que só tu ousas me dar. Que a tua mão me percorra. E, confuso nos seus sentidos, beijar-te-ei, perdido na tua pele, perdido nas tuas vísceras, cantos e melodias. Aqui estou - estático. Estende-se a vista sobre a espuma que varre a areia desta foz e, tranquilo me sinto, por saber-te mergulhar em nós.
Espero-te aqui.
Escorraçam-te. Gozam-te. Ignoram-te. E, à laia do melhor no pior que conseguimos a nós reunir - desprezam-te.
Depois, um dia destes, eu chego. Venho comprar tabaco, porque não és só tu, sim tu, Joaquim, que precisas de te preencher com algo que te falta, através de um aditivo qualquer. Peço um café também.
- Joaquim, a vida não é uma crónica que se possa escrever
Joaquim questiona-me se lhe "arranjo" um cigarrito. Dou-lhe cinco - os que me restam do maço. Afinal foi isso que aqui vim fazer. Comprar mais droga. Digo-lhe para não os fumar todos de uma vez, sabendo que é inútil dizê-lo porque Joaquim vai beber três ou quatro cafés de rajada e vai acompanhá-los com os cigarros que acabei de lhe oferecer. Sei que é assim. Joaquim sorri-me, agradecendo educadamente a oferta, e eu questiono-me se oferecer cigarros será de facto algum presente que se possa chamar de presente. Joaquim sorri-me, exibindo alguns dentes completamente podres e outros tantos em muito mau estado, o sorriso com o qual afasta todos aqueles que nunca fizeram ou tiveram intenções de se aproximar dele. Joaquim é cliente habitual de todas as pastelarias que há aqui no quarteirão onde vivo. Regularmente encontro-o. Sento-me numa mesa próxima e de vez em quando trocamos palavras. Joaquim é bastante inteligente. Às vezes anda menos por cá. Anda desequilibrado. Nessas alturas, fala-me de raios laser que desintegram humanos, teleportes, viagens astrais no tempo e no espaço, vórtexs intemporais, passagens para outros Universos através de buracos negros, e de como a ciência teria a ganhar se lhe fosse dada uma oportunidade num centro qualquer de investigação. Ouço com atenção, e delicio-me com todos os pormenores técnicos que diz conhecer na área da electrónica.
Depois, há aqueles tempos em que Joaquim, um pouco mais presente no mundo que conhecemos, a realidade que se vê aqui - um pouco mais palpável - em que se sente ainda mais só, falando-me muitas vezes de como gostaria de encontrar uma mulher para casar e ter filhos. E eu pergunto-lhe, que realidade palpável é esta, Joaquim? O que está realmente definido e existe de facto? E aí, surge todo o seu poder de argumentação e capacidade de filosofar, qualidades estas que o levaram a conseguir conceber há uns tempos atrás a sua própria empresa - legalmente, que se diga. Lembro-me de ver folhas coladas nos postes de iluminação das ruas e noutros locais onde se lia:
Electricista Joaquim - conserta tudo. Disponível 24 horas por dia.
Fantástico tu és - Joaquim.
Nem sempre conversamos. Às vezes, tento em vão, ainda, escrever as crónicas da minha vida. Ele por lá fica, a fumar os seus cigarros de olhar perdido no vazio, ou noutra época sua qualquer. Uma época onde sentidos nossos e alheios não conseguem penetrar. Um espaço onde ninguém tem a capacidade de desprezar Joaquim - é só dele esse lugar.
Despeço-me e pago as nossas despesas. A caminho de casa, deixo-me levar pelos meus pensamentos. Quando da próxima vez, Joaquim, correres atrás da fortuna a que tens direito por herança de um familiar, cuja identidade toda a gente desconhece, e caíres de novo sobre as molas ferrugentas do colchão do teu mundo, não desças as escadas do teu prédio para destruíres em fúria o teu carro com um taco de basebol. Desce cem metros de rua e toca-me à porta. Ouvirei com gosto teceres os estudos que efectuaste para conceber uma máquina que controle as condições atmosféricas - ouvirei. Prometo. Confia em mim. Nem toda a gente te despreza ou te quer levar à força para o hospital, onde te espetam uma agulha que escorre Zypadhera. Não é que por vezes não precises - porque precisas, mas só por ti. É importante que saibas "voltar a casa". Se não consegues sozinho, pede ajuda - não é vergonha, Joaquim. E talvez essa seja a maior viagem astral que podes fazer por ti, nem que seja por esta realidade que todos dizemos conhecer. Meto as chaves à porta de casa e pergunto-me - Mas qual realidade?
E depois estou aqui, vem aquele dia a mim – tu vens – que eu conheço-me de vida por dar, por uma parte de mim – acreditas? Desta vida que por vezes também me falha, desta vida quando o meu olhar, aqui, se põe e repõe lá sobre aquele além, quando este meu olhar se confunde por entre campas, jazigos, crucifixos e – tu sabes, Rui – o cemitério.
Que a vida, por vezes, é um instante demasiado fugaz, um instante fugaz mal amado e rejeitado. Tic-tac. Ecos graves querendo assaltar silêncios, querendo quebrar esta ligação que estabeleço, fora de mim, fora de ti – Alexandra. Alexandra! Tu espera-me – peço-te. Só mais um pouco – que eu preciso, preciso de ti. Sentes?
E não me venço, não venço túmulos, covas, flores murchas e apodrecidas, ai – e tudo o mais, porque a terra ainda nos há-de pesar um dia. Que a terra já te esmaga o corpo – Rui – que a terra te acolhe o corpo, o corpo que adormecido para sempre se fez órfão de alma. Que eu também nada sei de para onde vão as almas que se cansam dos seus corpos. Que se cansam de tudo. Que eu não sei. Alexandra – e tu – sabes? Pai, que me desapareceste num final de tarde que não sei ser distante de um Outono qualquer – Outono de morte. Tu sabes?
E tu – Rui – não saltes. Que neste terraço disperso de Primavera recente, a minha mão não te abarca, que deste terraço sou ainda mais pequeno. Dói esta vista que não se te chega para ficares – não dói, Rui?
E esta distância, Alexandra, esta distância que me é longa extensão de arrepio, é sim, dimensão que aniquila, aniquila este conseguir – sem dúvida – a impotência percorre-me. Compreendes? E porque me é fácil, agora aqui, detonar palavras para te puxar à superfície, para te trazer à razão, para te dar um pouco de luz – essa forma sem forma – espectros que desenhamos nas nossas próprias vidas, essa forma que também nos falta. Que eu não quero julgar-te, Rui. Que é fácil dizer que o teu sofrimento é em vão, incompreensivelmente descabido e sabes porquê, Alexandra? – Porque não é meu. Que o sofrimento de quem se atira para a morte de uma ponte qualquer é inutilmente infantil, simplesmente porque não sou adulto que chegue para o reconhecer. Não é meu. Que eu quero esquecer esta queda, que deste terraço - tecto de um mundo desvanecido da vista distante, toda e qualquer arte de respirar se parece falível. Amor, que o Rui saltou. Que este travo amargo de chuva que se me escorrega pela garganta abaixo, amanhã, o sol não dilui. A morte nunca se evapora e muito menos se desfaz. Que a ponte de nós, Alexandra, é anjo ou demónio libertador para ti – Rui. E o vento que me carda as lágrimas, quando no fundo da rua o rio se mostra como fosso vazio, quando o rio é monstro que se mitiga na escuridão da noite e é fusão de olhos e mar pela manhã. Que cada pilar de cimento e ferro é coveiro hábil no manejo da pá – céu e Deus, não! Que o teu voo – Rui – virá traçado na última página do jornal de sexta-feira, esse jornal que há muito me esqueço de ler. Tudo se esquece. Tic-tac.
Cada instante é morte e nascimento de outros. Uns gloriosos, outros nem por isso, para uns – pelo menos. Alexandra – que eu estou aqui. Em mim, em ti – Alexandra – dá-me o teu calor morfina.
Ainda escrevo em papéis que coloco na caixa que me ofereceste. Lembras-te? A caixinha de madeira que fizeste e que depois pintaste à tua maneira – sempre ingénua. Os papeis onde rabisco os assuntos que quero ver resolvidos. Tu disseste – Escreve neles as coisas que desejas que Deus cuide e coloca-os na caixa. Sempre que uma dessas coisas chegar à sua calmaria, tira o papel da caixa e enterra-o num sítio que te seja querido, talvez, junto ao mar – e sorriste.
Tu já não me ouves. Já não sei de ti. Nada. Quis que me amasses. Quis ser amada, e no entanto, vejo-me perdida algures numa fronteira entre dor e desespero – é sempre assim. Já não distingo. Nem sei se fronteira o é, na realidade – não sei se é alguma coisa. Ontem morreu-me um corpo às mãos. Poderia ter sido o meu, não me importaria. Questiono-me infinitas vezes sobre que papel é este o meu onde tu nunca apareces. Se soubesses o quanto te amei e se soubesses o quanto te desejei. Mas tu, tu não eras tu – estavas fora de ti. Também não distinguias, tinhas a desculpa de não saberes se haveria alguma coisa digna de ser seguida – talvez eu? Quis ser amada, quis ser acarinhada, quis que me abraçasses e que do fundo da escuridão te insurgisses para fugirmos os dois. Antes da aurora, antes da chegada da realidade, antes de sentir o cheiro do café que mais não era o cheiro de um dia igual a tantos outros. Dizia-te que um dia acabaríamos assim – separados. Tu dizias que não; por onde andas? E a vida – lembras-te dela? Ainda hoje é o teu nome que repito quando acordo de manhã e quando me recordo desse corpo que me morreu nas mãos, nas minhas mãos impotentes. É de ti que me lembro porque te quero vivo, porque te quero aqui – junto de mim. E porque, impotente também fui quando não evitei a nossa própria morte. É o teu nome que está dentro da caixa – que Deus te cuide, já que eu não fui escolhida para o fazer.















