o caminho

Posted by Lourenço On 01:12 0 comentários Categories:



é por aqui!

E começo com um texto, já aqui publicado, que me é muito querido.

Fim de linha

Posted by Lourenço On 01:42 8 comentários Categories:

Criei o meu primeiro blogue com um forte desejo de partilhar e dar a conhecer os meus textos. Achava que um dia iria ver a possibilidade concretizada de poder publicar os meus trabalhos. A via era esse blogue. Entretanto fui criando outros, sempre com a desculpa eterna de mudar de cara e precisar de uma renovação pois também eu as sentia. Mas os tempos mudam, bem como os desejos, os sonhos, as prioridades, o nosso interior, os dias, enfim, tudo muda, ou não fôssemos nós, humanos em constante evolução. Hoje já não tenho intenção de publicar os meus cadernos. Pelo menos para já, e através deste meio - o dos blogues. Não vou deixar de ter um espaço meu, porque me habituei a "ver" por aqui pessoas que admiro e que aprecio e cujos "espaços" merecem a minha atenção. Então, decidi criar um espaço um pouco diferente deste, mais de acordo com o que aqui tenho escrito. É uma necessidade. No fundo, quero desmarcar-me das linhas que um dia fizeram este blogue e o alpendre. Continuo a escrever, mas não tenho vontade em trazer esses textos "à luz do dia". A minha linha será outra. Pelo menos assim o espero. A linha e o Alpendre fecham um dia destes, mas antes informo-vos da minha nova casinha, está bem?


Constatação

Posted by Lourenço On 19:52 1 comentários Categories:

Nunca compreendi muito bem esta coisa de "fazer por merecer"...

Posted by Lourenço On 21:05 1 comentários Categories:

Tenho uma estátua fluorescente da virgem maria que me dá confiança e brilha à noite. Tenho os joelhos magoados. O calvário dos fiéis devia ser menos árduo. Tenho trezentos e sessenta e cinco santos numa caixa calendário daquelas em que cada dia tem um chocolate. Tenho um lencinho branco onde limpo as lágrimas enquanto assisto a uma vigília via tv depois da minha última ceia de hoje. Às vezes quando o vapor é muito, tenho o salvador no espelho. deito-me de consciência limpa, não me esqueci das velinhas, nem de deixar a moedinha na caixa, e o meu "livro de orações" tem um delicioso cheiro a mofo. Dormirei o sono dos justos e talvez não acorde quando o galo da minha vizinha cantar três vezes e o meu senhorio o tentar apedrejar. Sinto-me bem e deus queira que consiga não me masturbar.

Ámen.

Fé - A Naifa

é ali

Posted by Lourenço On 20:22 1 comentários Categories:

dentro daquela garrafa que respira o miúdo. Tosco, desajeitado e pouco racional, espera algo que não sabe que forma tem. Apenas possui crenças que, por vezes, são aniquiladas por um reflexo de vidro escuro. Dentro daquele espaço, vai construindo o seu mundo, também este, desajeitado e imerso no caos. De olhar nos aviões que aterram algures por entre as torres de cimento, encolhe-se sem saber muito bem que tecer. Já há muito que se apercebeu que o sol surgirá novamente, amanhã por assim dizer, peneirado por aquela pequena abertura chamada "gargalo". Sabe que a fronteira é limite, e que a madrugada da vida assassinará sempre a sua noite. Não há gente que o encontre aqui. Mergulhado, ali, dentro da sua garrafa, bebendo a sua própria urina. Um dia morrerá, sem conhecer as coisas que haviam na mesa, onde a sua casa-garrafa há muito se fazia resplandecer.

terminava uma semana de contornos quase sobrenaturais. Sim, estava bem a ver que não. Alucinante de tal forma que, já a meio, só me apetecia mandar uns shots de Listerine ou de azeite ou mesmo de detergente da louça pela goela abaixo. Assim, sem apelo nem agravo. Só para me anestesiar um bocado. E agora meus amigos e amigas...bem, agora, nos próximos dois dias é a valente da PDL!

Os jantares entre amigos cá em casa são sempre hardcores. Ontem-hoje foi mais um. E depois, conseguimos sempre garantir um passaporte para o belo do domingo em que os únicos passeios se alternam entre o sofá e a cozinha. Só assim para recarregar baterias e dar ao corpo um pouco de energia. Convívios destes, são aqueles que nos enchem o espírito. Haja saúde para perdurarem.

tritão guardião

Posted by Lourenço On 13:42 2 comentários Categories: ,


Fotografia: Lorenzo Monsanto
Palácio da Pena - Sintra

Homem de princípios

Posted by Lourenço On 23:47 2 comentários Categories:

Era uma vez um homem muito rico que vivia constantemente preocupado. Estava sempre preocupado em gerar mais dinheiro nas suas empresas. Queria comprar outra casa maior do que a do vizinho do lado; outro carro mais potente do que o que tinha; outro telemóvel mais evoluído; outras roupas mais caras. Este homem andava sempre muito preocupado. Como estava constantemente a pensar no que poderia vir a ter, nunca se apercebia do que tinha. Nem uma forma de objecto ou sujeito se lhe afigurava à noite quando se deitava, excepto todas aquelas imagens que cultivava na sua cabeça inchada de tanta matéria. Esse homem estava sempre ocupado e raramente olhava os seus nos olhos e muito menos lhes conhecia os pensamentos. Preocupava-se com os seus negócios e preocupava-se, ainda mais, com as suas contas bancárias. O seu maior prazer era saber que os seus amigos o invejavam. Invejavam a sua fortuna e o seu percurso. Era isso que o fazia sorrir.


Um dia, de cabeça ocupada numa possível compra e deveras favorável ao seu bolso, caiu nas escadas e partiu o pescoço. Morreu. Poucos lhe velaram o corpo e poucos mais lhe apareceram no enterro. Diz-se que nunca soube o que era uma pequena coisa. Uma daquelas - das melhores.


noite obscura

Posted by Lourenço On 13:25 2 comentários Categories:

Acordo entorpecido. Poder-se-ia dizer – anestesiado,e nesse caso não estaria a abrir as pestanas. Ainda. A mão, por entre uma dor de cabeça infernal, procura o interruptor da luz que deve estar pendurado algures na mesa de cabeceira. Bate. A minha mão bate num objecto que, de início, não consigo identificar. Deve ser do tacto adormecido. Mas o som remete-me para qualquer coisa em vidro. Atinjo o interruptor e acendo a luz. É uma garrafa. O despertador pisca uma hora qualquer que não pode ser real. Deve ter faltado a luz enquanto eu dormia pesadamente. É uma garrafa – VAT 69. Decidi recordar origens. Decidi reviver tradições, metafísicas populares, crenças e lendas - enfim, um estímulo estúpido do patriotismo desmedido de fígado doente mais do que inchado. Abro a garrafa e dou um gole profundo com sabor a morte de gargalo. Arde-me a garganta. Arde-me o estômago. Na mesa de cabeceira, um maço de tabaco exibe um cigarro feliz. Puxo-o para mim. Vou ao bolso das calças e tiro o isqueiro. Dormi vestido. Mais uma vez. Estou habituado. Não me levanto. Não vale a pena dar-me a esse trabalho estóico, até porque, talvez, não tivesse forças para isso. Não me sinto e por isso não sei. Olho à minha volta, e vejo uma pilha de roupa enorme que surge do chão qual Evereste de tecidos coloridos e sujos. Aposto que veria o mar se lhe fosse capaz de subir. Dou outro gole, porque a vida é feita destas pequenas perdas que ardem. Como o Amor por exemplo. Arde quando o perdemos e mói quando o temos. Contradições-género-ciência-oculta. O amor é só mais gole de uma garrafa a resvalar de um ego qualquer. Mais um gole, que a vida é feita deste fluído agridoce que nos coloca em frente a cada uma das nossas frustrações. Ah! - que bom que é ser-se diferente. O importante é ser diferente; no sofrimento, na alegria, e até, na sujidade de espírito. Ser diferente, ou lá o que isso queira dizer. Dou outro gole, porque a vida não é feita de nada disto, e eu, eu abomino a vida. Ou pelo menos, abomino uma parte de vida que há em mim. Mas espera lá tu. Há um corpo inerte ao meu lado. Veste uma farta cabeleira loura. Está hirto. Descansa pesadamente – também? - se eu descansasse. Algures por entre os meandros labirínticos de uma noite, que simplesmente me escapa à memória, devo ter amado este corpo. Ama-se sempre nas noites confusas de copos que transbordam, euforias desmedidas e imprecisas que nos afastam justamente do Amor. Do amor próprio. Devo ter amado – este corpo que jaz. Se eu ao menos pudesse e conseguisse recordar. Mas não. Dou outro gole. Mato a garrafa porque o que de mim havia a matar, há muito que matei. Sou assim. Rápido e certeiro. De forma cruel e masoquista, fui-me golpeando até não haver pele para escalpelar. Só faz sentido estar vivo assim. A vida é feita em profundidade e a dor também conta. A dor também marca pontos. Tento recordar-me de como esta farta cabeleira loura chegou aqui. A este quarto vazio que, mergulhado na sombra, não remete para qualquer hipótese de futuro. Mas o que é o futuro seu tolo? O futuro, aqui e agora, deve ser parecido como qualquer coisa que é, nada mais nada menos, saber o propósito e a origem de uma coisa. Por isso bebo. Para conhecer a parte mais recôndita e oculta de mim. A minha origem. Por uns momentos foco-me no instante exacto em que deixei de processar. O instante exacto – uma vez mais –, em que deixei de fixar a memória. O instante em que essa memória passou a ser esparsa. Tento levantar-me, e ao falhar nesta missão-destino, deparo-me com as costas da cabeleira farta e loura da minha amante de noite perdida. Está fria. E de súbito recordo-me. Do instante exacto. Falei com as putas ali da Alameda. Recordo-me. Trazia uma garrafa de um vinho barato qualquer na mão. Ofereci-o às damas de passeios vazios. Quis oferecer-me. Propus fundar um sindicato que falasse por elas, que falasse para as pessoas que de dia lhes fogem e as negam, e que durante a surdez da noite as perseguem desalmadamente. Depois, quem sabe, seria empresário. Empresário de putas que lhes sai em defesa dos seus direitos. Toda esta boa vontade foi arrasada com um - “oh lindo, faço-te um broche por 30 euros” - ao que este fiel e pretenso futuro empresário, membro efectivo do estado de pornografia proibida de rua sem necessidade de quota mensal respondeu - “se tivesse 30 euros, comprava outra garrafa de vinho e de certeza melhor que esta”. Sim. Estou a recordar. De regresso a casa, parti uma montra ali de uma rua qualquer, cujo nome está para além da minha capacidade de identificar os tais instantes exactos. Sim e, em seguida, dirigi-me para casa e fiz amor, sexo, paixão e desgraça com esta manequim que no frio da noite, e com o frenesim de alarmes que esburgavam o meu corpo, roubei avidamente e sem apelo. Quis dar-lhe liberdade. Acabo a garrafa de VAT 69, desligo a luz e, sem mais demoras, adormeço e alcanço a minha.


Recomenda-se

Posted by Lourenço On 21:26 1 comentários Categories:




um saltinho ao CCB para ver a exposição de Joana Vasconcelos. A entrada é gratuita. Vale a pena ver!

Fotografias: L.Monsanto

Dar-lhe

Posted by Lourenço On 14:55 3 comentários Categories:

com a alma não é preciso, mas sim, simplesmente obrigatório...

contagem crescente

Posted by Lourenço On 22:26 9 comentários Categories:

A vida também é feita de muitas contagens decrescentes. A contagem decrescente para acabar aquele trabalho. A contagem decrescente para acabar aquele texto no qual há muito se pensa escrever. Contagem decrescente para dormir. Para ler aquele livro. Para dar aquele beijo. Contagem decrescente para um regresso a casa.
Tudo está em contagem decrescente e hoje dei comigo a pensar nisso. Lembrei-me que daqui a dezasseis anos terei cinquenta. Foi aí que percebi que enquanto piscamos os olhos um par de vezes, já nos passaram imensas coisas ao lado, e às quais nem demos a devida importância. Nada que não se tenha já pensado. Mas desta vez foi diferente. Assim, decidi ver as coisas ao contrário, e em vez de encarar tudo como uma caminhada para o seu fim, decido encarar tudo para o seu início. É isso. Baseio-me em contagem crescentes. Falta pouco para tudo, mas esse tudo, está todo aqui. Aqui e agora. Agarro-me com as máximas forças ao que está à minha volta, sem pensar no que me resta, mas sim no que ainda está para vir.

a vida nunca se esquece

Posted by Lourenço On 03:45 1 comentários Categories: , , ,

Confesso que, de início, parti-me a rir depois de ler as notícias do jornal lá da terrinha. De início ri-me; não por prazer maléfico ou por maldade, mas sim porque, mais uma vez, vi como funcionam as coisas neste ciclo de vida das vidas. Depois de tanta mania - só mania é claro - de perfeição, julgamentos, opiniões mal paridas e na maior parte das vezes sem qualquer fundamento, dado que a desgraceira é bem pior para aqueles lados, eis que a vida devolve em troca o bolo dos ingredientes fornecidos à toa para o ar. Ri-me. Muito. Depois tive pena. Depois achei que pena não se tem por ninguém. Depois transformei a pena em compaixão, aquela compaixão que tenho por qualquer Ser Humano ou animal em sofrimento que se me cruza. Engraçado é, reparar nas cabeçadas que a malta dá, e ainda não terem percebido que a vida nunca se esquece. E, na euforia de se acharem donos e senhores de todas as verdades, continuarem a viver o dia-a-dia seguindo o mesmo padrão de comportamentos. Não entendem que amanhã vem a nós o que foi de ontem. Santa tristeza. Haja compaixão.

regresso

Posted by Lourenço On 16:38 7 comentários Categories:

Bem, ao que parece, estou de volta. E com um fato novo e tudo.

Fortaleza

Posted by Lourenço On 23:25 4 comentários Categories:

Quero acreditar que todos estes quilómetros que faço, edificam em mim uma fortaleza quase inexpugnável. Neste asfalto de coração forte, todas as coisas entram dentro de mim e passam a ser minhas. Podia desenrolar lençóis de palavras, mas deixaria sempre a descoberto, todo o meu corpo vontade de ponta de céu, vontade de refúgio de mar. Não quero ter frio. Debaixo de tudo isto, destas notas finas e soltas, estremeço; penso que o poder da vida está apenas neste singelo minuto - esta pequena gota do grande oceano de hoje. E, a forma de vida que conheço, é-me alegre quando num último gesto consciente, desligo a luz da mesinha de cabeceira para, finalmente, deixar-me adormecer para a noite. Amanhã, subo novamente para o meu barco, iço a vela e levanto a âncora em direcção ao que quero atravessar. Não há nó que me engate.

Deste cume de desolação

Posted by Lourenço On 22:44 2 comentários Categories:

Deste 10º andar toda a vida me parece distante. Deste 10º andar, o mundo como o conheço deixou de existir. Não está em ti, esse defeito pernicioso – está apenas em mim. Por isso te ilibo adorável criatura de Deus. Estiveste sempre. Deste 10º andar, todos os sofrimentos e dores passam ao lado, passam-me por baixo. Lá em baixo – tão longe. Como a vida me parece agora uma pequena miniatura esculpida sob arte humana, desfigurada, no entanto. Nos intervalos em que penso que vivo mais perto, acho que sim, que estou bem aqui. Na distância das distâncias. Longe de tudo. Longe desse mundo que outrora conheci e parte dele que não conhecia, mas que com uma ansiedade estóica e desmedida queria conhecer. Deste 10º andar, recordo-me dos tempos de maior liberdade. As tardes de ócio a proclamar letras. Os cafés partilhados com os desconhecidos que, para que se saiba, me eram sempre rostos familiares e, de alguma forma estranha, próximos. Escolhi este 10º andar, porque esperava que a dor que não consegui ver daqui – a dos outros – me ocultasse a minha. Por mais que me afaste do centro do mundo, mais me aproximo do meu, e sem mais demoras e atalhos, apercebo-me que essa distância o fez menor.

Posted by Lourenço On 00:06 6 comentários Categories:

"Say hello to all the apples on the ground .They were once in your eyes but you sneezed them out while sleeping. Say hello to everything you've left behind. It's even more a part of your life now that you can't touch it"

Fuga

Posted by Lourenço On 23:53 7 comentários Categories:

Escondo-me por trás de um nome para que não me conheçam o corpo. Para que não saibam que tenho um rosto, uma voz ou um par de olhos felizes ou tristes. Não sei. Nem sempre precisamos de ter rosto, quando o coração espelha tudo...

Marés

Posted by Lourenço On 22:02 1 comentários Categories:

Rema Lorenzo, rema. Rema mar fora, rota destemida sobre vagas, frios e chuvas. Na maior das tempestades, encontrarás vida. Na maior das tempestades, estará a tua maior perdição. Rema Lorenzo. Rema e continua a remar. Que o hoje não tem metade da força que tu terás amanhã...

Medicus

Posted by Lourenço On 20:21 0 comentários Categories:

Na próxima vida, se existir, gostava de ser médico. Não um daqueles que mede a tensão e diz: está tudo bem, pode ir para casa; gostava de ser um daqueles que salta para lá dos muros do hospital e que ajuda as pessoas de corpo esventrado e indesfesamente prostrado no chão. Na próxima vida quero salvar vidas.

150 bpm

Posted by Lourenço On 19:41 2 comentários Categories:

Entra no átrio aquele coração cheio de asa negra e com missão de ceifar. As paredes estão podres, o estuque vai caindo lentamente, qual gotas de pequenas nuvens de verão. As mulheres gemem, os bébés, aos seus colos, choram e ali há o desespero e a doença como último perdão. A súplica suprime a dor. Entra a asa negra com o martelo na mão. Juíz d'alma em fraco coração. No ar, paira o odor acre de urina, vómito e nenhuma resolução. Alguém vai estatelar-se, alguém vai morrer, alguém escolherá, em vão, a sua despedida deste mundo inglório e fútil. E ali estou. Sem saber que pena é aquela que os vidros teimam em espelhar. Se sobreviver, volto para contar...

Fevereiro

Posted by Lourenço On 23:17 9 comentários Categories:

Todas as minhas noites são iguais. Como fotocópias. Com a particularidade de serem cada vez mais escuras. A de hoje é sempre mais turva que a anterior - aquela puta de ontem. Em Fevereiro vão mudar. Às vezes preciso mesmo da repetição de tudo durante um largo período de tempo. A repetição esmaga-me, coisa que eu deixo acontecer. Num determinado momento, até gosto, para além de me parecer essencial ao meu desenvolvimento. A maior parte das coisas que sabemos, foram aprendidas por intermédio da repetição. Depois, noutro instante, tudo me irrita. E , noutro ainda mais tarde, rejeito a gaja com a mesma facilidade com que a aceitei. Deixo-me vencer pela persistência, e em seguida pelo cansaço; quando tudo me parece irremediavelmente igual para todo o eterno, desisto das semelhanças e agarro-me às diferenças. Aí, a vida muda. Estou ansioso por Fevereiro, esse mês que até nem me dizia nada de especial, até projectar para dentro dele, toda a minha energia. E vai ser descomunalmente brutal.

Posted by Lourenço On 23:09 4 comentários Categories:

Um dia mergulho no mar e procuro um mundo submerso. Verei medusas, sereias e estrelas do mar. Serei pedra de coral ancorada no fundo. E lá só existirá o silêncio surdo da água estanque e morna. Um dia serei raio de sol que fecunda azul de Oceanos, ilhas e portos distantes. Um dia serei astro no alto dos céus. Centelha de vento e coração, na alma sequiosa de vida e mãos. Tudo isso serei, quando despertar em mim o que sempre desejei...

Estupidez

Posted by Lourenço On 21:20 7 comentários Categories:

E já conheço a minha estupidez. Desejava-a malograda, mas não - nada disso, tudo lhe parece não chegar e muito menos o tempo com que me abraça. A minha leve e suave estupidez surpreende-me quando menos espero. Acabo por me deliciar com ela. Faço-lhe tapete vermelho de entrada. Faço-lhe amor. Como se não bastasse - isso mesmo - descobri que a amo. Descobri-lhe os podres que deverão ter qualquer coisa de muito podre meu. Mas, a minha estupidez acaba por me levar avante. Para todo o lado. A minha amada e meiga estupidez, diz-me: sou o teu fim. Nunca acredito, porque a minha estupidez está para além de mim, e será sempre, apenas e só, todo o meu princípio. É na minha estupidez que está a minha origem...

Posted by Lourenço On 22:51 2 comentários Categories:

Pudesse, por vezes, o meu mundo residir debaixo de um cobertor quente sem qualquer janela para o exterior...

De volta a casa

Posted by Lourenço On 01:35 2 comentários Categories:

Fim de semana tranquilo rodeado de faces conhecidas. Sabe bem estar afastado da grande cidade e das grandes confusões. Aqui há um simplicidade que contagia. Aqui há o cheiro da infância longínqua. Aqui há os passeios noctívagos dos gatos em busca de abrigo, à deriva pela negritude estendida debaixo da janela do meu quarto. Não há som que vergue a noite.

Inquietação

Posted by Lourenço On 19:11 2 comentários Categories:

Desce por mim uma culpa quase vergonhosa de tanto me pertencer. De tanto me possuir. De tanto - oh meu Deus que não há fim -, na mais dura da maldições me fazer demasiado sua. Receio não me distinguir. Esta pérfida obscena, pela qual me faço trespassar, poderia muito bem enfeitar-se com um manto gelatinoso e ignóbil que eu, inutilmente - assinalo, jamais teria a capacidade de despir. Seria engolido. Falta pois, senão faltar mais, a não ser da cabeça aos pés, a vontade que a faça estremecer - a ela - a culpa; estendida sobre mim, escorre devagar e vai sorrindo num estúpido e desabafado frenesim. Quando por escopo, me chega a noite e eu me julgo salvo de qualquer ignomínia, e em pesado cansaço almejo estar entregue ao merecido sono encantado, eis que, no silêncio disfarçado, me chega o bulício da sua confusão - da culpa. E, sem apelo nem misericórdia, esta puta velha de esgar desprezível, leva uma vez mais a sua de vencida, e acaba com o meu coração.

É verdade

Posted by Lourenço On 19:45 2 comentários Categories:

que não sabemos nada do amanhã. É verdade que não sabemos onde vamos estar para o próximo ano. É verdade que não sabemos onde a vida nos vai colocar no próximo "amanhã". É verdade tudo isso, bem como é verdade, ser essa a piada de tudo isto - "coisa" inebriante e excitante à qual nos habituámos chamar de "vida". Sim. Que piada haveria em saber o que vai acontecer no futuro? As maiores surpresas vêm da ignorância e inocência. Que se fodam as certezas, os dados adquiridos (essa merda existe?), as normas, as leis, os princípios, o "comportamento Universal", as regras de conduta do que normalmente não é mais que: "faz o que eu digo e não faças o que eu faço" - Sim. Que se foda tudo isso. Rebentar com tudo o que nos é conhecido. Quebrar e explorar. Ser maior dentro de si. Tentar tudo isso. Extrapolar... é esse o meu desejo para o próximo ano e todos os outros que vierem.

Admirar...

Enaltecer....

Subir....

Re-definir...

Nunca retroceder e temer...

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Criar. Seja o que for!


Uma carta
Um sorriso
Um quadro
Um beijo
Uma flor
Uma alma

Criar. Tudo. Uma e outra vez.
Como



HUMANOS








PS - Não malhem à entrada de 2010. Pés firmes e sem medos!



Objectivos não muito objectivos para 2010

Posted by Lourenço On 11:16 6 comentários Categories:

Este blogue volta ao activo regularmente - prontoschh, não muito regularmente - em Janeiro.

Só para que conste: no regresso, o conteúdo deste blogue e do Alpendre irá tornar-se sinuoso e pesado. Acho que me fica bem "avisar" os 3 leitores que aqui passam diariamente.

Até lá... Boas festas. Empanturrem-se e fiquem mal-dispostos. Ah! Não é o que se come entre o Natal e o Ano Novo que engorda, mas sim, o que se come entre o Ano Novo e o Natal, sabiam?

Louvado seja o Senhor nas alturas!

Shimeru

Posted by Lourenço On 19:27 4 comentários Categories:

Nem sempre é fácil calar os nossos demónios interiores. Há as batidas, ora suaves, ora bruscas na janela. Ouvir ou não ouvir, eis o tormento que carece de resposta. Tudo é fácil quando nos chega crispado pelas bocas dos outros. Morre em tempo se não conseguires suportá-lo. É melhor. Menos doloroso, menos aflitivo, apesar de existir sempre uma vida grandiosa para além da aflição. É quando desesperas que encontras o teu Ser, tal como é, tal como o tens moldado. Mantém-te firme porque amanhã, o amanhecer será brilhante e todas as coisas jorrarão uma luz que te inundará, e tudo será novamente criado para compreenderes todos os propósitos no seu todo. Fecho-me e escrevo. Regresso a casa em mim.

Ainda há segredos

Posted by Lourenço On 23:06 3 comentários Categories:

Ali ao lado, ele. Deslocado, à parte de tudo, observa mais uma vez. Pergaminhos antigos, velhas escrituras, filamentos de como todas as coisas se repetem sempre da mesma forma. Sabe como tudo começa e, ainda mais sórdido do que qualquer outra coisa que se possa imaginar, sabe como tudo vai acabar. De lado, ouve os desvarios, as opiniões sobre tudo e mais tudo, as certezas convictas - as manias de quem pensa-, apenas pensa, que já não há segredos. Ali, debate-se o mundo, as pessoas, forjam-se teorias, e acima de tudo, compete-se por um lugar no topo da maior admiração. O topo de uma cadeia absurda que só existe em cabeças mesquinhas. Às vezes, ele, ali ao lado, observa mais uma vez. Deslocado. E, no auge do seu silêncio, congemina uma saída para que no fim, as certezas sejam só dos outros, e que ele saiba como sair dali um pouco melhor. Pensa que, afinal, só existe o que ele quer que exista. Mas ainda não sabe. Não sabe o que quer que exista. Não conhece, ainda, o sabor da vida que quer tomar em mãos. Não tem, ainda, a coragem de deixar e partir. Só sabe que, só sabe que o mundo, felizmente, ainda tem segredos.

Feriado

Posted by Lourenço On 19:43 8 comentários Categories:

Ando a pensar em transformar este blogue num feriado permanente. Se se tem algo, é suposto cuidar-se disso, não é? A verdade é que já não me apetece cuidar de uma linha que seja. Pelo menos aqui. Gosto de escrever, quando gosto gostar de escrever. Tenho escrito algumas coisas. Poucas, mas algumas. Inexplicavelmente, prefiro ver essas linhas de letras absortas na escuridão do armário onde guardo os cadernos e as folhas soltas que vou preenchendo. Muitas pessoas dizem -me que já escrevi melhor. Eu sei. É verdade. "Já estiveste melhor." - Eu sei. Mas que interessa tudo isso, se amanhã não sair qualquer palavra da minha boca?

Desvanecimento

Posted by Lourenço On 20:02 3 comentários Categories:

Estes muros não deveriam de existir. Estas páginas em branco não deveriam repousar aqui. Aqui nesta secretária que tem o mundo sobre ela. México. Aqui e agora, não deveria existir. Eu não deveria ser matéria sequer. Depois, eu estou ali. Sol na face. Livre de tudo. E encontro-me. Sem forma. Sem rosto. Sem olhos e outro corpo que seja medido pelo pulso. Pelo pulso da dor ou da alegria. E depois - ah! -, depois vem a brisa fresca e marítima embaciar-me os olhos até me trazer a cegueira do mar. Sou cego. Quem me traz a vida para este parapeito de felicidade? Que sabem vocês , vocês que nunca me viram? Que não sou matéria que tenha algum sabor que seja conhecido? Remo rio acima. Norte que não me afoga. Perturbado ou alucinado? Diferenças tendem a ser incompreendidas e rejeitadas. Mas se vocês soubessem... Se vocês soubessem, como é este mundo visto daqui... Se vocês soubessem... Que minha é esta voz para dizê-lo? Vocês sabem tudo. Sabem, infinitamente, mais do que eu. Vocês quem? Para quem escrevo? Se vocês soubessem... Jamais a dúvida vos assolaria. Juro-vos. Que tudo tem a beleza imiscuída em si nos segredos dos seus poros e pregas. Perturbado eu? Triste eu? Que sabem vocês de mim? Infinitamente mais do que eu? Digo - não. Porque não sou menos ou mais do que quem quer que seja. Só vivo. Na simplicidade da grandiosidade de tudo o que é pequeno. Que há quem pense que sou perturbado e triste. Deixai. Que há quem pense que vivo no desmazelo da escuridão. Pensem em tudo isto. Pensem se quiserem, que eu aqui, aqui neste balcão de vida, digo que todos esses pensamentos são brisas que passam e que me abraçam. São brisas que me transformam em tudo e em nada. Se vocês soubessem o que me move. Se vocês soubessem... Mesmo não querendo saber para nada? Mas, uma coisa vos digo - sei rir, talvez melhor que outros que não me sabem. Que não me sabem ser.

Posted by Lourenço On 19:57 2 comentários Categories:

Não posso continuar a desviar-me do meu caminho. Preciso de regressar a mim...

Depois do primeiro trago

Posted by Lourenço On 02:42 4 comentários Categories:

existem sempre aqueles instantes de instabilidade, onde todas as reminiscências surgem de abalo como que a cortar a mente e o coração, e nos quais me preciso focar para me poder equilibrar. É um jogo de astúcia. A partir daí, desse ponto remoto mas tão perto, tudo é infinito e todas as possibilidades encontram-se à minha mercê. A partir daí, sou Deus do meu mundo e Deus do meu princípio, meio e fim. Escusado será - digo - profetizar essa semântica como sendo uma mera ilusão. E, ainda há que recordar que, apesar de todos os esforços em compreender todos os sinais - sim, há que recordar que -, nem todos seremos escolhidos. Resta pensar que sem nós também não existiriam os escolhidos e a continuação ficaria, irremediavelmente, colocada sobre a linha. Não esta, mas sim a linha, onde tudo ainda está para ser escrito e erguido...

Relatividade

Posted by Lourenço On 22:35 5 comentários Categories:

Tenho saudades daquelas grandes dores que me levavam a escrever. A minha felicidade não me traz dores. E a tristeza que por vezes sinto, é uma tristeza feita em pontos soltos. Essa rara dádiva é uma tristeza feliz. Devo de agradecer?

Acidez

Posted by Lourenço On 22:03 Categories:

"Aquele homem – ele vive ali fechado. Fechado naquele mundo imundo. Atolado de merda e desespero. Aquele homem – ele é daquele tipo de seres irritantes – tu sintoniza-te meu caro leitor –, ele é daquele tipo de seres irritantes que fazem a barba à frente de um espelho que reflecte a imagem de um monstro nojento, onde ele – aquele homem – vê uma figura recortada no meio do sebo super-cola 3 que não é mais do que o garoto, que toda a gente queria ver longe, em tamanho ampliado. "

Toda a sujidade aqui

Refuse & Resist

Posted by Lourenço On 09:07 3 comentários Categories:

Normalmente as pessoas tendem a mostrar uma grande resistência à mudança. Temem o desconhecido porque estão habituadas aos confortos que lhes são conhecidos. No pólo oposto dessa bússola das emoções, a agulha tende para esse mesmo desconhecido pelo fascínio que lhe está permanentemente associado. A modificação da tirosina segregada pelas glândulas supra-renais, também responsável pela produção de adrenalina, em pequenas ou grandes doses, confere-nos a capacidade de sentir o pulsar da vida em cada poro, em cada fio de cabelo, pestana, tecido, medula e osso. Negar o desconhecido, é negar a condição humana da evolução e renunciar ao espírito de incerteza. Aquilo que nos diferencia das máquinas é isso mesmo. As rotas da vida estão longe de serem códigos binários, programados para seguir sempre a mesma sequência. Cada vez mais, gosto de reparar que tenho feito um excelente trabalho em erradicar da minha vida a resistência à mudança e sinto-me, a cada dia que passa, mais feliz pelas minhas escolhas.

Recorte: A porta

Posted by Lourenço On 00:20 Categories:

Continuo a caminhar, e, por vezes, enveredo em passos compridos pela estrada para evitar que o tacão das minhas botas não fique preso nas intermitências vazias do cuspo das pedras da calçada. Uma mulher sem o apoio do seu tacão, é como um homem sem trabalho e com uma família inteira por sustentar – sente-se inútil e pequena. Desprotegida e desapoiada. Há coisas assim, e outras também, mas essas, essas ainda não as descobri. Todas as noites sonho com uma porta que se abre. Uma porta que me leva para fora desta estrada e onde uma casa quente me espera. Uma casa onde ouço vozes de gente que, descansadamente, conversam à mesa de jantar e as sopas quentes fumegam as suas próprias almas. E debaixo desse tecto de conforto e algodão, eu seria compreendida e amada. Esquecer-me-ia da minha vida antes de morrer para a outra que também não tive. Terei vivido?


Texto integral aqui


Infinite Horizons

Posted by Lourenço On 20:00 Categories:

Costa da Caparica e ondas e areia nos pés e chinelos e caminhadas e corridas e livros nos relvados junto ao grande rio e café nos miradouros e beijos e mais beijos e tudo o que nos remete para o silêncio da maior das gratidões que se pode sentir em estar vivo... Não é que somos mesmo privilegiados?

Astúrias

Posted by Lourenço On 21:39 Categories:

"Sou um gajo analógico num mundo digital..."





"Be your own bomb" Bitch!

Posted by Lourenço On 19:29 Categories:

Dizem que depois da guerra vem a paz. Acredito que, embora deteste qualquer tipo de guerra, esta coisa tenha razão de ser. Isto a propósito de que conheço algumas pessoas que bem mereciam uns prémios "Nobel" da paz, uma vez que vivem em constante e absoluta competição, onde tudo parece valer para arrasar o que se encontra por perto. Arrasa-se para se reinar em paz. Mas, há sempre um mas, desta vez não me lixam. Desta vez também sou candidato a prémio "Nobel"...

Este fim de semana

Posted by Lourenço On 19:14 Categories:

vou privar com o meu amigo Narrador...

De manhã

Posted by Lourenço On 00:06 Categories:

quando o sol espreita com os seu raios flamejantes sobre o Tejo, rasgando pedaços de nuvens preguiçosas, visto o fato e encaro o mundo disfarçado de adulto. Não sabe mentir, este meu coração de eterna criança...

E como costumo dizer

Posted by Lourenço On 21:39 Categories:

todos os dias - para comigo mesmo - há sempre uma praia nova para descobrir. Ser vagabundo na retina da vida. E, ser também, uma flecha apontada aos céus que, a rasgar o ar, soletre o som da areia que se deixa soltar, lentamente, da palma da mão sob o areal. Que eu não seja sombra de mim mesmo...

{............}

Posted by Lourenço On 20:12 Categories:


Desvanecem-se as palavras e as folhas amarelecem sobre a secretária. Olho para os cadernos abertos, as ideias apontadas à velocidade estonteante, escritas sob o manto do - "amanhã desenvolvo-te a ti" -, porque hoje é tempo perdido que baste. E, neste campo de concentração, revolta e extermínio, sem alento, deixo-me cair. Já não sei se fui eu que morri para a escrita, ou se foi a escrita que morreu para mim...

Fotografia daqui

I say

Posted by Lourenço On 21:55 Categories:

that you can tell a lot about someone's character just by the hand shake...

Seguir a onda

Posted by Lourenço On 20:10 Categories:

Quem apanha ondas, sabe bem o que quer dizer "seguir a onda". Tenho apanhado algumas ondas também. O mar faz parte de mim. Tempos houve em que, absorvido por um fluxo camuflado por arquétipos de paisagens fictícias com lavagens cerebrais impetuosas - pelo meio - a boicotar uma cabeça transformada em esponja que adorna lava-louças, deixei de visitar o mar. Voltei ao mar antes do Verão começar, em boa hora - asseguro-vos. Isto tudo para dizer que, hoje, ampliei o significado que gemina com a expressão "seguir a onda", ou "deixar fluir". Pelo caminho caótico de regresso a casa, sem competição absoluta por um pedaço de asfalto, pensei nisto.

Da grande arca

Posted by Lourenço On 09:41 Categories:

Para trás fica um homem que era um menino que apenas queria ser homem. Deixa família, amigos e lugares que gosta; aquela esplanada, aquele banco, aquele jardim, aquela fonte, aquelas ruas, aquele castelo - deixa - sim, respira profundamente e diz-me que - deixa tudo isso para trás. Arruma nas prateleiras do coração todas essas coisas que não se esquecerá de cuidar e proteger. Já não olha para as mesmas à distância, porque agora tem-las dentro dele. Agora tudo é seu. Depois eu saio e, cada vez mais, fortaleço em mim a ideia de que: é nosso aquilo que sabemos deixar viver dentro de nós, quer se visite em corpo ou não...

Little details

Posted by Lourenço On 01:00 Categories:


Fotografia: Lorenzo Monsanto

A cada gota

Posted by Lourenço On 18:29 Categories:

um sorriso, porque agora apetece-me sorrir. E a olhar para o que está lá atrás... só se lá estiver o mar.



Fotografia: Lorenzo Monsanto

Assassino

Posted by Lourenço On 12:54 Categories:

Estendidos na estrada, os corpos em sangue. No turbilhão das imagens, o assassino move-se na escuridão dos seus pesadelos. Recorda-se da encruzilhada. O pacto com o diabo - a alma como oferenda. Em retorno - o seu poder destrutivo. A confusão instala-se e as caras de terror desfilam em espiral de sangue na sua mente demoníaca. Sente o torpor dos braços. A faca pinga a vida no chão e, cada gota que embate, ecoa-lhe ruidosamente no crâneo. Perde-se em perguntas. Não sabe porque o faz, só sabe que a estrada é longa e que continuará a ceifar almas. Foi esse o acordo...

Recorte: Benedita e Augusta

Posted by Lourenço On 17:10 Categories:

Benedita reencontrou Augusta para lá de vinte elipses enfadonhas descritas pela Terra em torno do sol. Na taberna, Ângelo habituara-se a adiar mais um dia, a embrulhar-se em mais uma noite sem rosto nem fome, enfim, habituara-se à ideia de que nada haveria por ali que compensasse sequer o esforço de caminhar – fosse para onde fosse. É fácil deixar de se esforçar e acreditar no que quer que seja, é uma questão que se desenrola com a mesma rapidez com que se estende um tapete que muito se desejou vislumbrar numa sala vazia de nossa casa.
Alexandra espelha-se cândida na profundidade do seu sono, rememorando-me que um texto, um conto, uma história, deve ser coesa e consistente no seu conteúdo. Que há regras, mesmo sabendo que regras podem ser quebradas. Alexandra ecoa-me com a mesma velocidade com que lentamente e entorpecida se vira para o outro lado nos degraus da sua bem-aventurança – desvia-me; sabe que respeito a sua grandiosidade e conhecimentos, mas Alexandra – sussurro-lhe onde não me ouve – eu não quero fidelidade e mergulho de gravidade na gramática, eu quero fidelidade na memória esconsa que me trespassa a narrativa daqueles que conheci. Portanto, encarno a pena leve que se esborracha à tangente, por um triz, neste desfile amotinado de tudo o que vagamente se me atravessa. E assim me perdoo. Alexandra, tu dorme na paz do que me é querido e amado.
Benedita estava ali por Ângelo. Ângelo conhecera Augusta na fonte das noites negras e turvas, rogando clamor e misericórdia a um Deus surdo, abafado pelo desencanto do seu servente. Noite a noite seria impensável, assim pensava Ângelo, conseguir alterar um trilho já por si só suspenso em rochedos escarpados e, com uma estocada mortífera, acordar o animal que lhe dormia em silêncio, fustigando-o na amplitude simétrica dos dias. Já não lhe era devido esse esforço inglório. Do fundo da taberna, as cartas da sueca batiam pesadamente sobre os tampos das mesas que, gastas e cansadas, suplicavam pela mutilação e o eterno consumo do fogo, aspirando a cinzas de uma lareira abandonada qualquer. A poluição cambaleante como herança, o fumo negro e asfixiante - a vingança por anos de murros no dorso, por anos de mares com aroma de morte podre e bagaço que se lhes escorreram. “Filho da puta que não assististe a copas” – grasnou uma voz revoltada de lar inóspito, enquanto na mesa ao lado, indiferentes, dois ucranianos afogavam as praças, ruas e famílias deixadas para trás nas suas terras longínquas, submergindo-as ao fado acutilante do vinho comprado a granel e aconchegado por prestações num jarro de vidro baço e sujo. (...)

Life is just

Posted by Lourenço On 16:14 Categories:

Fuckin' AWESOME!

Recorte: At one single note from heaven

Posted by Lourenço On 12:20 Categories:

Eu juro que te vejo agora, colocando os pontos finais e vírgulas devidos à distância que se me assoma, encolhida e agarrada ao teu corpo, resgatando a vida que um dia pensaste que te fugia. Na diagonal dos teus medos. Mas, salvaguardada a existência do nosso Deus, juro que vejo a tua pele despida de sentido para que no fim de tudo – depois de tudo – possa voltar a nascer. Só se encontra um destino quando se perde e se deixa sair toda e qualquer vontade em acreditar que deve ser assim – encontrar um.

Kuajurahu

Posted by Lourenço On 14:54 Categories:



"Penso nas acções de graças, nas declarações de fé, nas curvas celestiais. Não me consigo libertar da religiosidade do dia. É que, ao contrário das estátuas, eu não sou feito de pedra, mas sim do desejo que elas celebram."

Gonçalo Cadilhe in Planisfério Pessoal

Os dias do início

Posted by Lourenço On 19:01 Categories:

O Verão foi-se embora. Dele restou um hálito quente e um brisa suave. O calor vai resistindo. Vem-me à cabeça - e talvez essa imagem me chegue devido à mudança que aí se avizinha na minha vida -, um soldado nas suas trincheiras, ansioso por voltar a casa, a resistir a uma morte inevitável. É apenas uma mudança - sopro-lhe. Feliz pela minha - não me concebo. Como o Verão que ainda resiste sem se ceder no seu todo ao Outono. Olho para o mar, esse, como gigante sempre de rosto diferente, esse - sim, esse fica. Para sempre. Eterno. Como esta amizade - assim espero. Vá para onde for - porque vou.







Encantam-me bastante

Posted by Lourenço On 20:51 Categories:

aquelas pessoas que vão envelhecendo numa dimensão de estupidez directamente proporcional às peles que têm penduradas por todo o lado. Têm aquele "je ne sais quoi" essencial para passaram ao lado das suas próprias vidas de merdinha. Admiro essa proeza.

Às voltas

Posted by Lourenço On 14:13 Categories:

com os papéis que vão alterar todas as rotas. O que é não volta a ser. Que me leve a paz por essa estrada fora...

À noite

Posted by Lourenço On 21:26 Categories:

penso que não sei combinar um casaco com umas calças. Perco-me no que não tenho e recrio-me no que tenho. E, nesta eterna balança do devia e não devia, sei-me ausente daquele rumo. É só hoje - digo. Olho para o chá e esqueço-me da chávena...

"The astonishing urbana fall"

Posted by Lourenço On 11:19 Categories:

Tenho em mim uma vontade descendente na partilha, essa vontade caída que me leva a querer esconder noutro ponto do mapa, a cidade - com as suas ruas, casas, becos e pontes -, de letras que aleatoriamente vou erguendo. Um dia destes, desisto e fujo...

Descolagem

Posted by Lourenço On 17:48 Categories:


Tela "Descolagem" 75 x 50 por:
Sónia Oliveira


Se ao menos eu soubesse que este sangue, este meu sangue que carreguei até aqui e que agora se derrama, não me roubaria as minhas histórias – se ao menos eu soubesse -, poderia tentar por uma só vez que fosse ser feliz. Talvez pudesse – vocês sabem – aspirar à minha eternidade. Serenamente - penso. Leva-me em rasto lento e cadente os dias, tudo o que agora de mim sai. Mas poderia, meu Deus, não ser tão lenta esta morte que me urde?
Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Apenas fica. Desfeito – mastigo – para ser esquecido.
E continuo aqui; olho para o meu corpo, jogo de pescoço, pernas, braços, mãos e dedos que desfiaram com destreza, mas já não o reconheço de ser encarnado noutro tempo. Pequena rapariga de sonhos gigantes - caramelos que se saracoteavam delicadamente, envoltos num manto de saliva, apenas e só, abrigo de boca desejosa de vida a conhecer. Neste tempo, este que não meço, cada dia desvela uma romaria dolorosa sem lei nem passo certo, e descobre outros dias ancorados, já sem nome ou forma, no pó de um canto recôndito qualquer que não sei saber visitar. E, é assim que os sinto. Escorridos das entranhas.
Noutro esgar, não mais sóbrio mas que me atrevo enquadrar, vem até mim a criança que esfolava os joelhos nas calçadas de pedras brancas e polidas, que um sol de Agosto lambia avidamente. Não me sinto cheia, não me concebo e por este solene engano de mim, devo estar a esvair-me.
Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Afligem-se os cheiros desses dias, dias roubados a uma morte de cristal frágil e silenciosa de sentidos. Estremeço. A minha menina – sussurrava a minha mãe. Mãe - aceno perpétuo deste meu Deus impressão de luz. Por aqui fico à espera. De um prolongamento. De uma corda que se estique. Fico. À espera que numa hora súbita pendurada dos céus, se esgueire a ilusão de cor em ondas vítreas, e que pouco a pouco, a vontade de resgatar a vida, descubra se teriam sabor as lágrimas daqueles que me amavam quando se me chegou a hora de partir. Nunca morri. Apenas cresci. Mas não digam a ninguém porque é segredo e, os segredos são como rios de sombras numa tela perdida de uma parede num lugar qualquer. E lá, lá ninguém mos rouba. Lá... são todos meus.


Texto escrito para a inauguração da exposição de pintura da minha amiga dos céus e dos infernos, Sónia Oliveira.



Amigos do Alpendre:
Se os vossos convites expiraram, por favor informem-me. Não sabia, mas têm prazo de validade. É como eu. Portanto, digam-me qualquer coisa para eu reenviar, caso seja necessário.

Os dias do fim...

Posted by Lourenço On 21:27 Categories:








Só o Verão vale a pena ser vivido
Rilke

Good Vibes

Posted by Lourenço On 14:55 Categories:


Bem pessoal. Muito directamente como sempre... Este blogue vai de férias. E eu também. Vão ser quase dois meses a abrir. A verdade é que não ando a escrever nada de jeito e, por isso, dou-me uma folga que vai ser sem dúvida nenhuma muito bem aproveitada. Outra verdade é que, nunca escrevi nada de jeito. Foda-se! Custa-me admitir isto. Mas tem de ser.
Se o regresso depender de escrever bem, então estas podem vir a ser umas férias permanentes. Se entretanto se processar algum milagre, e eu for abençoado com o dom da escrita, volto em Setembro. Se não se der nenhum milagre, volto na mesma. Resignado, no entanto.

Vou ali apanhar umas... volto já.


Foto: daqui - Thanks!

Inesgotável

Posted by Lourenço On 15:18 Categories:

Levavas-me pela mão. Recordo agora. Aqui. Aqui num ponto sem ponto, numa hora sem hora, num retorno da vontade de um pensamento mais leve que a brisa que me extrai até aí. Daqui para aí. Quantas vezes o fizemos? Recordo agora. Aqui. Puxavas-me suavemente. Mão na mão - corredor fora. Não é longe – diziam-me os teus olhos. Ou era eu? Apenas eu? Parecia-me que te ouvia dizer – não é longe. Guiavas-me. Dedos entrelaçados, suores e linhas misturados. Chegar ali, teria sido impossível de imaginar naqueles tempos tão lá atrás. Tão distantes. Costuma-se correr na direcção errada, mas eu vos digo, até aqui caminhei. Até aqui esperei. Passo atrás de passo. Dia após dia. Recordo agora. Tu e eu, juntos, olhares colados, palavras cruzadas, corpos destinados. No teu corredor. Ao fundo, pouco fundo, última porta à direita – passagem para o paraíso. Chamam-lhe, por vezes – céu. Também. Podia ser azul, mas não é. Aqui, as cores perdem os seus nomes. Aqui, as cores são tuas e percorrem o teu interior de sangue, até te esqueceres como lhe chamavas antes de aqui entrares. Talvez, esteja dentro de ti. Última porta à direita, uma última vista sobre o rio, um milésimo de segundo que antecede o mergulho na penumbra. Sente-lo. Recordo agora. Aqui. A respiração que se intensificava, o teu corpo fino e ágil a deslizar na atmosfera, e uma vez mais, sou-te pequeno em palavras. É aqui que ficamos – dizia-me o teu olhar. Ou era eu? Apenas eu? Os teus cabelos que rasgavam os lençóis brancos e perfumados a escorrerem sobre o meu braço, e ali, abandonado, quase te toco. Vejo-me. Eu juro. Lá muito longe – noutros dias, continha-me, mas com o passar dos tempos percebi que já não precisava de o fazer e com a maior convicção que respiro agora – não queria perpetuar esse travão que se nos impunha. Não queria mais as rédeas que já se me enrolavam ao pescoço. E quando a vontade impera – impera tudo. Percebi ali – ao fundo do corredor -, que me falavas na tua própria linguagem, e a redundância em que me escapo neste solene minuto sem segundos esquartejados em alta velocidade, leva-me a pensar – sempre tão tua. Sempre expressiva, sem recorrer a uma só palavra que fosse. Recordo agora. Para trás, meses e meses de confidências, noites e noites passadas em branco, onde a vontade – essa – a de descobrir, de falar, de conhecer, de querer saber mais sobre o corpo que do outro lado se estendia, se sobrepunha poderosamente à outra que era deixá-lo descansar. Para trás, uma caminhada que, por vezes leve, por vezes pesada e lastimosa, me foi dando sem máscaras, adornos falsamente construídos ou uma outra espécie de um véu que pudesse cobrir o rosto ou alma, e negá-los como se lhe fossem alheios. Para trás, horas de almoço vazias e desprovidas de um só sentido que fosse, meras imagens de quimeras que saberíamos poderem encarnar corpo e vida. Horas de almoço, desprovidas do que quer que fosse – digo – até de alimento que não chegava a um estômago sem miolo, esse, que à noite retombava como um animal ferido na luta. Mas havia sempre uma palavra tua que cortava os céus crispados, onde mares negros suspensos e densos se encalhavam na serras, e que apenas serviam para turvar ainda mais, uma vista que já de si padecia de uma retina tapada para a luz. Recordo agora. Essas palavras que se sobrepunham e que varriam a distância na estrada que um dia viria a ser fio de infinito. Como fio que une. Quase como se tivesse sido sempre assim. Ou seria apenas eu? Tu, mulher de força vital e inesgotável, a fechar fissuras e frestas na minha estrutura quase caída em ruínas, esquecendo as fragilidades do seu próprio engenho. Jamais me esqueço. Nada, alguma vez, apagará isto. Digo-to agora, amor. E essa palavra – amor – tantas vezes mal usada, tantas vezes perdida; talvez achasse que a poderia soltar noutro lugar qualquer, noutra vida, depois de renascer uma vez mais longe daqui, mas não, essa palavra vinha aos pouco a mim. Talvez achasse. Recordo agora. Depois, surgiu-me a ideia do mundo visto de cima. Ruas cortadas e cravadas na terra, labirinto de uma só entrada e saída – digo-te – era inevitável. Fosse qual fosse o caminho era propósito chegar aqui. Acabavam-se os enganos, então. Aqui chegáramos. Nesta linha invisível que nunca descortinei do ar, esse fio de infinito, a determinar o ponto de encontro que era aqui. Recordo agora. Última porta à direita, ao fundo do corredor...


Providence

Posted by Lourenço On 01:05 Categories:

Aqui te sentas. Uma vez mais, no meio de uma outra, também, tarde qualquer. Tarde onde a morte, ou parte dela, se desfia com a maior das serenidades. Por cá, congeminas um outro lento desfile de palavras que, no final e num conjunto indigno dessa designação, nada dirão a quem quer que te seja exterior. Cortas a fita, por ventura, fio delicado de textura quase imperceptível e que une esse exterior ao que se te esconde.
E, é mesmo assim.
Duas pontas soltas que se impugnam, duas pontas que, imóveis e imponentes, relegam o observador para os confins de mim. Algures, ele contorce-se. Com dor. Rosto pálido e esbatido. Nem ele, inquieto contudo, se transpõe nessa outrora proeminente ousadia. Depois, passado o momento de ressaca, de confronto com a realidade, proclamo que há sempre diversos prismas, diversas arestas a que se arrisca deslizar, e que oferecem aquilo que sabes ser teu. A tua identidade, ainda que, fora de um contexto plausível. Imparcial. Ou não – suspiro. Quem sobre elas - as arestas - se poderia estender está em óbvio sofrimento, preso talvez, numa dessas pontas de fita solta ao vento. Por isso, por lhe ser difícil a permanência, tenta, se é que se possa descrever esta acção dessa forma, equilibrar-se. Céus – que ideia a minha. Tenta, é certo. Como pode.
E, é mesmo assim.
Depois, há ainda – uma vez que me é conferido o poder de imiscuir -, a noção de saber que existem bocas que, ainda que fechadas e seladas, dizem mais do que algumas que se escancaram. Palavras e mais palavras de quem não se entende a si mesmo. O que poderia eu ser sem tudo isto? Tudo o que se rege igualmente sem esse sujeito que me surge sem cronologia lógica? Então, em que dito por não dito, me fico?
Lá fora, corre a vida suave e subtil. Com a morte que desfia na maior das serenidades. Os rios límpidos que moldam pedras à mercê da sua passagem. Pedras que, devidamente estabelecida a posição de miragem, se cingem a cores de aguarela desbotadas. Lá fora, há gente que suspira, há gente que se lamenta e há gente que sorri. Aqui dentro, os ponteiros giram caducos mas sempre precisos e preciosos. Dizem que tudo o que se solta – haverá quem saiba porque o diz – volta a unir-se. Que este conjunto, para quem te é exterior, nada mais será um esboço indigno dessa designação. Resta no fim, disso ninguém desconfia, um belo e patético fato idiota que nos é colocado por força de mão e punho alheio.
E, é mesmo assim.


Posted by Lourenço On 17:11 Categories:

Nega as tuas trevas e negarás a tua verdade e essência. Triste é a sina de quem se faz sem fazer.
Ali. Assim.
Nas graças desprendidas e fáceis. No desfile inútil do que é - dizer-se vivo.


Posted by Lourenço On 23:12 Categories:

Amigos e amigas,


Assim muito directamente: Agradeço todas as Vossas palavras, gentis, amigáveis, fantasiosas, ou nem umas nem outras até à presente data. Agradeço mesmo. Mas, daqui para a frente, a janela dos comentários ficará de persianas corridas. Hediondo mesmo, é não ter um motivo, vocês sabem, aquela coisa de ter uma razão premente... Foda-se, adoro esta minha instabilidade emocional!

Dúvidas daquelas que sobressaltam o espírito e que não vos deixam dormir, elogios daqueles mesmo muito bons e que toda a gente gosta, linchamentos daqueles mesmo muito lixados e que ninguém gosta, perguntas às quais não saberei responder, e críticas que custam a encaixar, deverão ser remetidas para a caixa de correio indicada no meu low-profile. Não prometo resposta em tempo real. Imaginário, talvez.

Vá lá não chorem... já viram o tempo que não vão perder?! Assim vai sobrar mais tempo para as coisas realmente importantes da vida, como por exemplo: passar a ferro, limpar o pó, polir o carro, fazer sopa, tirar os pontos negros da cara, dar de comer ao periquito, comprar candeeiros, descolar uma pastilha da sola do sapato, regar as flores, fazer ponto cruz, ver resumos de jogos de futebol da semana passada, ligar aos avós, mudar a capa do edredon, tirar o bolor do tecto da casa de banho, fazer festinhas ao cão, dar beijinhos, cravar massagens, usar preservativos... Eina - tantas coisinhas boas!

Oh Foda-se! Divirtam-se!


Posted by Lourenço On 18:32 9 comentários Categories:

(...) Sentados, permaneciam um ao lado do outro. Há muito que era assim. Os risos nervosos que tremelicavam sobre as piadas sem graça. Esperavam. Ela, meiga, a tentar viajar para longe daquele lugar. A tentar levá-lo, quando na realidade ela própria só conseguia ficar. Ele, a recordar-se das velhas, das louras, das morenas, e dos cabelos com outras cores, algumas descabidas e até mesmo de mau gosto. Timidamente, sorria, sem saber muito bem o que os esperava. Fosse como fosse - era tarde. Sabiam-no. Sentia repúdio por uns momentos, gratidão por outros; tudo o que acontece num determinado tempo sobre o pretexto do Amor, um dia, talvez, passa a ter acontecido sobre o pretexto da loucura. (...) Sentiram a frescura do alívio, de quem acorda pela primeira vez para a vida, de quem lhe é dado um novo fôlego; como uma nova identidade, quase, quase, como que abençoados com um novo destino. Ali. Oferecido. Sorriram e desapareceram. Há quem diga que os viu ascender aos céus, perdendo-se num ponto distante sobre a cidade que adormecia lentamente debaixo das sombras do final de tarde. Há quem diga que morreram de tanta vida que absorveram, pois nunca mais foram vistos. (...)



Que a vida é mais do que tudo isto.
Que a folha branca se troca por outra colorida.

Que a respiração se confunde a si mesma.
Que nem sempre há a crucificação de todas as coisas no fim.
Que a mente dorme enquanto o corpo permanece desperto.
Que tudo é como um longo novelo de cor e de vida que tem de se gastar.
Que há um ponto onde tudo converge, onde tudo se conjuga.
É este.
E, é o da saída.



Diz-me que é uma incursão, dizes?

Type O + & Negative

Posted by Lourenço On 11:50 20 comentários Categories:

Eu não tenho nome. Eu não tenho rosto ou identidade. Eu nem sequer me imagino, e juro-vos que por vezes tento mesmo – isso de me imaginar, com um corpo. Basta-me. Eu não tenho voz que se ouça, apenas projecto sons que se abafam e que se atropelam uns aos outros, uma e outra vez, em desfilar contínuo e imparável. Sim – projecto no vazio. Basta-me. Eu não falo como vocês. Falo no que não fui e no que vou ser – falo do nada. Que ser? Eu vou assim pelas ruas. Risco muros e edifícios velhos com pedaços de giz branco, traço linhas paralelas aos passeios porque não me quero perder quando me encontrar. Digo, também, que a graça da coisa é esta – a graça é não saber quando isso acontecerá. Basta-me. Por não ter voz. Eu atiro pedras ao rio. Escolho-as meticulosamente para que não se afundem mas erro-me, até as mais bonitas se afundam. Todas aquelas que escolhi. Todas elas se afundam; antes – digo-vos - despedem-se, salpicando os meus lábios com um ou outro pingo de água doce com sabor a lágrima. Basta-me. Eu digo coisas às pessoas mas as pessoas não as ouvem – porque não as digo. Tudo o que de maior queres ouvir nunca ouves de quem querias ouvir - eu queria ouvi-las da vida. Eu escrevo sem saber escrever e ler. Se eu ao menos soubesse ler, achas que poderia comprar um livro? É isso. Aqui me sento a ler o que não sei ler. Enterro o corpo na relva fresca e decapitada, olho para a ponte, ferros e cabos como grilhões – aços como prisões. Olho – basta-me. Para as velas que se agitam ao longe. Para os bancos abandonados e vazios de amantes de mãos dadas. Para as casas. Para as flores. Para as pessoas. Se tivesse voz, podia contar a história de alguém que nem sequer rosto tem.

O Melhor Amigo

Posted by Lourenço On 03:02 7 comentários Categories:

O meu amigo nunca me julgou. O meu amigo sempre me aceitou. O meu amigo está sempre lá. Aqui. Lá. Zé, ouves-me? És tu. Esquece aquelas lamechices que se dizem, mas que não deixam de ser verdade e que ficam sempre tão bem. Esquece tudo isso. Estas palavras não são para ti. São para quem é do teu tamanho - são para o mundo.

O que estavas a fazer, Zé? Papel higiénico? Reciclagem humana?



Fotografia: Cláudio Pinto

José Ribeiro, 30 anos.
4º no Ranking Nacional de Cabeleireiros.
Cabeleireiro embaixador da Matrix.
Presidente da Assembleia Geral da Associação Nacional de Cabeleireiros.
Autor da rubrica "José Ribeiro Cabeleireiros" do programa Moda Portugal, transmitido pelos canais internacionais da RTP.
Cabeleireiro oficial da Expo Casamentos.
Formador de especialização de Cabeleireiros.
Autor de crónicas em várias revistas de moda.

Conheçam-no aqui.

"José Ribeiro Cabeleireiro penteia o mundo inteiro". Só tu, Zé... Só tu.


Quem me conhece, sabe bem o quanto gosto de cozinhar. É na cozinha que penso sobre as grandes coisas que me atormentam na vida, como por exemplo que t-shirt é que vou usar no dia seguinte, ou se no próximo sábado compro o Expresso ou o Sol. Enfim, aquelas questões que nos mutilam o estado de espírito. Adiante. Comer um prato elaborado aqui por estas mãozinhas é uma experiência de facto única. Única porque eu nunca, por mais que tente, consigo repetir o mesmo prato e por outro lado, tal como atravessar uma passadeira sem olhar para os lados, nunca sabemos se vamos ser atingidos por algo de mau. A refeição pode acabar no hospital. Mas ainda há quem me solicite os serviços para todo o tipo de refeições. Uns amam e outros fogem. Paciência, não podemos agradar a todos...

Hoje, apresento os famosos (apenas no seio da minha família-cobaia) ovos "Superfly T.N.T" à Lorenzo. A receita não é totalmente original, porque devo ter aprendido em algum lado a rechear os ovos, mas não me lembro onde e muito menos como. Todas as vezes que faço esta receita, ela é como uma espécie de vírus em mutação - sempre diferente. Esqueçam a silhueta 86-60-86-pau-de-virar-tripa, porque estes ovos são autênticas descargas nucleares de calorias. Aceitem a sugestão e nunca se esqueçam de que os homens, bem lá no fundo, ou mesmo bem à superfície, gostam é de curvas e algo para agarrar que não ossos. Resta-me salientar que, eu nunca ligo a quantidades porque não gosto de estar preso a números e também, porque as quantidades inibem a minha capacidade de improviso.

Ingredientes:

- Ovos (a quantidade é à escolha de cada um - eu como sempre 3, e no dia a seguir fico agarrado ao fígado a gritar - "Nunca mais como aqueles ovos!")
- Salsichas (podem ser de aves, para quem não gosta de gripes-alguém-vai-lucrar-com-as-vacinas)
- Chouriço (pode ser de soja, para quem não gosta de gripes-alguém-vai-lucrar-ainda-mais-com-as-vacinas)
- Cogumelos frescos (é conveniente lavá-los para tirar-lhes aqueles pedaços pretos de não-sei-que-raio-de-terra-é-esta-tão-escura)
- Cebolas (quanto mais me fazem chorar, mais gosto de as comer)
- Alho (eu mato vampiros com o meu hálito)
- Louro (esqueço-me de que o pauzinho do louro é cancerígeno - hahaha! - amanhã já dizem que previne uma cabazada de doenças)
- Sal q.b (este quanto baste parte-me sempre todo; quanto é isso? Quanto baste?)

Pensamento que me atravessa a mente durante a preparação dos ovos: Vocês sabiam que segundo os Cardiologistas, os portugueses ingerem em média, cerca de 13gr de sal a mais por dia do que o recomendado? E Amanhã? Que t-shirt é que hei-de vestir? Adiante.

Confecção:
Depois de cozidos, cortam-se os ovos ao meio no sentido longitudinal e retiram-se-lhes as gemas cozidas. Entretanto, em pânico, porque como bom homem que sou (não consigo fazer muitas coisas em simultâneo) faz-se um refogado de cebola em azeite (juntar alho, louro, sal e outros temperos ao gosto de cada um). Assim que a cebola estiver refogadinha e loirinha, junta-se-lhe os cogumelos frescos, o chouriço e as salsichas, tudo cortado aos pedaços (em cubinhos fica bem a nível estético). Acrescenta-se a esta argamassa as gemas dos ovos, também aos pedacitos. Mexes-se bem e pronto - temos o recheio feito.
Com uma colher ou à mão (fica sempre bem) coloca-se o recheio nas metades dos ovos cozidos onde era suposto estarem as gemas. Compacte-se bem o recheio. Unem-se as metades dos ovos já recheados e envolvem-se com farinha, ovo mexido e pão ralado. Há quem diga que é assim que se fazem os panados. Levam-se a fritar et voilá - prontos a serem servidos.

Sugestão de acompanhamento: Ervilhas com bacon em refogado de cebola com Paprika AKA Colorau e o que sobrar do recheio (a mim sobra sempre - o inconveniente de não me guiar por quantidades certas).

E assim se faz uma refeição mais poderosa do que o próprio Ovomaltine!
Bom Apetite e boa sorte com o médico que vos atender nas urgências do hospital mais próximo. Uma lavagem ao estômago nunca fez mal a ninguém...Oh vá lá...dos fracos não reza a história.

Mail recebido de última hora e que nada tem a ver com a receita, ou se calhar, até tem...

90 pessoas apanham a gripe Suina e toda a gente quer usar uma máscara.
Um milhão de pessoas tem SIDA e quase ninguém quer usar um preservativo.


Pertinente - diz o chefe Lorenzo. E sim, amiga J - irónico.


Kyuukei

Posted by Lourenço On 00:11 9 comentários Categories:

Espuma

Posted by Lourenço On 13:34 20 comentários Categories:


Espero-te aqui. Sobre as ondas que se quebram no mar. Espero-te aqui. Que o teu corpo suba por mim e que o meu corpo suba pelo teu. Que me envolvas com o teu olhar, que me segregues as palavras que só tu ousas me dar. Que a tua mão me percorra. E, confuso nos seus sentidos, beijar-te-ei, perdido na tua pele, perdido nas tuas vísceras, cantos e melodias. Aqui estou - estático. Estende-se a vista sobre a espuma que varre a areia desta foz e, tranquilo me sinto, por saber-te mergulhar em nós.

Espero-te aqui.


Joaquim

Posted by Lourenço On 11:40 27 comentários Categories:

Dizem-te esquizofrénico, Joaquim. Deve ser mania deles, não é? "Eles". Julgam-se diferentes, mas são sempre iguais. Os que te rotulam, rotulam tudo, não te preocupes, pois. Nada têm para fazer nas suas próprias vidas; assim, a vida dos outros é a sua principal fonte de entretenimento.
Escorraçam-te. Gozam-te. Ignoram-te. E, à laia do melhor no pior que conseguimos a nós reunir - desprezam-te.
Depois, um dia destes, eu chego. Venho comprar tabaco, porque não és só tu, sim tu, Joaquim, que precisas de te preencher com algo que te falta, através de um aditivo qualquer. Peço um café também.

- Estás a escrever as crónicas da tua vida? - pergunta-me, fazendo referência ao caderno que me apoia o braço. Está sempre a apoiar-me, não está?
- Joaquim, a vida não é uma crónica que se possa escrever
, é preferível vivê-la - respondo vagamente, deixando o meu olhar perder-se no olhar de Joaquim.

Joaquim questiona-me se lhe "arranjo" um cigarrito. Dou-lhe cinco - os que me restam do maço. Afinal foi isso que aqui vim fazer. Comprar mais droga. Digo-lhe para não os fumar todos de uma vez, sabendo que é inútil dizê-lo porque Joaquim vai beber três ou quatro cafés de rajada e vai acompanhá-los com os cigarros que acabei de lhe oferecer. Sei que é assim. Joaquim sorri-me, agradecendo educadamente a oferta, e eu questiono-me se oferecer cigarros será de facto algum presente que se possa chamar de presente. Joaquim sorri-me, exibindo alguns dentes completamente podres e outros tantos em muito mau estado, o sorriso com o qual afasta todos aqueles que nunca fizeram ou tiveram intenções de se aproximar dele. Joaquim é cliente habitual de todas as pastelarias que há aqui no quarteirão onde vivo. Regularmente encontro-o. Sento-me numa mesa próxima e de vez em quando trocamos palavras. Joaquim é bastante inteligente. Às vezes anda menos por cá. Anda desequilibrado. Nessas alturas, fala-me de raios laser que desintegram humanos, teleportes, viagens astrais no tempo e no espaço, vórtexs intemporais, passagens para outros Universos através de buracos negros, e de como a ciência teria a ganhar se lhe fosse dada uma oportunidade num centro qualquer de investigação. Ouço com atenção, e delicio-me com todos os pormenores técnicos que diz conhecer na área da electrónica.
Depois, há aqueles tempos em que Joaquim, um pouco mais presente no mundo que conhecemos, a realidade que se vê aqui - um pouco mais palpável - em que se sente ainda mais só, falando-me muitas vezes de como gostaria de encontrar uma mulher para casar e ter filhos. E eu pergunto-lhe, que realidade palpável é esta, Joaquim? O que está realmente definido e existe de facto? E aí, surge todo o seu poder de argumentação e capacidade de filosofar, qualidades estas que o levaram a conseguir conceber há uns tempos atrás a sua própria empresa - legalmente, que se diga. Lembro-me de ver folhas coladas nos postes de iluminação das ruas e noutros locais onde se lia:

Electricista Joaquim - conserta tudo. Disponível 24 horas por dia.

Fantástico tu és - Joaquim.

Nem sempre conversamos. Às vezes, tento em vão, ainda, escrever as crónicas da minha vida. Ele por lá fica, a fumar os seus cigarros de olhar perdido no vazio, ou noutra época sua qualquer. Uma época onde sentidos nossos e alheios não conseguem penetrar. Um espaço onde ninguém tem a capacidade de desprezar Joaquim - é só dele esse lugar.
Despeço-me e pago as nossas despesas. A caminho de casa, deixo-me levar pelos meus pensamentos. Quando da próxima vez, Joaquim, correres atrás da fortuna a que tens direito por herança de um familiar, cuja identidade toda a gente desconhece, e caíres de novo sobre as molas ferrugentas do colchão do teu mundo, não desças as escadas do teu prédio para destruíres em fúria o teu carro com um taco de basebol. Desce cem metros de rua e toca-me à porta. Ouvirei com gosto teceres os estudos que efectuaste para conceber uma máquina que controle as condições atmosféricas - ouvirei. Prometo. Confia em mim. Nem toda a gente te despreza ou te quer levar à força para o hospital, onde te espetam uma agulha que escorre Zypadhera. Não é que por vezes não precises - porque precisas, mas só por ti. É importante que saibas "voltar a casa". Se não consegues sozinho, pede ajuda - não é vergonha, Joaquim. E talvez essa seja a maior viagem astral que podes fazer por ti, nem que seja por esta realidade que todos dizemos conhecer. Meto as chaves à porta de casa e pergunto-me - Mas qual realidade?

Tic - Tac - último - segundo

Posted by Lourenço On 11:13 10 comentários Categories:

Rui, que eu de alguma forma estou aqui – acredita. Tu sabes? De alguma forma, sei-te precisar de mim. De alguma forma para lá de qualquer sentido de lógica e racionalidade, ou outro tipo de conceito abstracto que se entenda, para alguns, sabes ser assim – que te sinto aqui.
E depois estou aqui, vem aquele dia a mim – tu vens – que eu conheço-me de vida por dar, por uma parte de mim – acreditas? Desta vida que por vezes também me falha, desta vida quando o meu olhar, aqui, se põe e repõe lá sobre aquele além, quando este meu olhar se confunde por entre campas, jazigos, crucifixos e – tu sabes, Rui – o cemitério.
Que a vida, por vezes, é um instante demasiado fugaz, um instante fugaz mal amado e rejeitado. Tic-tac. Ecos graves querendo assaltar silêncios, querendo quebrar esta ligação que estabeleço, fora de mim, fora de ti – Alexandra. Alexandra! Tu espera-me – peço-te. Só mais um pouco – que eu preciso, preciso de ti. Sentes?
E não me venço, não venço túmulos, covas, flores murchas e apodrecidas, ai – e tudo o mais, porque a terra ainda nos há-de pesar um dia. Que a terra já te esmaga o corpo – Rui – que a terra te acolhe o corpo, o corpo que adormecido para sempre se fez órfão de alma. Que eu também nada sei de para onde vão as almas que se cansam dos seus corpos. Que se cansam de tudo. Que eu não sei. Alexandra – e tu – sabes? Pai, que me desapareceste num final de tarde que não sei ser distante de um Outono qualquer – Outono de morte. Tu sabes?
E tu – Rui – não saltes. Que neste terraço disperso de Primavera recente, a minha mão não te abarca, que deste terraço sou ainda mais pequeno. Dói esta vista que não se te chega para ficares – não dói, Rui?
E esta distância, Alexandra, esta distância que me é longa extensão de arrepio, é sim, dimensão que aniquila, aniquila este conseguir – sem dúvida – a impotência percorre-me. Compreendes? E porque me é fácil, agora aqui, detonar palavras para te puxar à superfície, para te trazer à razão, para te dar um pouco de luz – essa forma sem forma – espectros que desenhamos nas nossas próprias vidas, essa forma que também nos falta. Que eu não quero julgar-te, Rui. Que é fácil dizer que o teu sofrimento é em vão, incompreensivelmente descabido e sabes porquê, Alexandra? – Porque não é meu. Que o sofrimento de quem se atira para a morte de uma ponte qualquer é inutilmente infantil, simplesmente porque não sou adulto que chegue para o reconhecer. Não é meu. Que eu quero esquecer esta queda, que deste terraço - tecto de um mundo desvanecido da vista distante, toda e qualquer arte de respirar se parece falível. Amor, que o Rui saltou. Que este travo amargo de chuva que se me escorrega pela garganta abaixo, amanhã, o sol não dilui. A morte nunca se evapora e muito menos se desfaz. Que a ponte de nós, Alexandra, é anjo ou demónio libertador para ti – Rui. E o vento que me carda as lágrimas, quando no fundo da rua o rio se mostra como fosso vazio, quando o rio é monstro que se mitiga na escuridão da noite e é fusão de olhos e mar pela manhã. Que cada pilar de cimento e ferro é coveiro hábil no manejo da pá – céu e Deus, não! Que o teu voo – Rui – virá traçado na última página do jornal de sexta-feira, esse jornal que há muito me esqueço de ler. Tudo se esquece. Tic-tac.
Cada instante é morte e nascimento de outros. Uns gloriosos, outros nem por isso, para uns – pelo menos. Alexandra – que eu estou aqui. Em mim, em ti – Alexandra – dá-me o teu calor morfina.

Deste terraço

Posted by Lourenço On 21:25 14 comentários Categories:

Alexandra. Espera por mim. Tic-tac – o relógio nunca pára. Cada segundo que passa é uma estocada nas costas, cada segundo é, segundo me parece, segundo que me corta o interior, acredites ou não, cada segundo é assim – peso que me enluta os ombros. Tic-Tac – retumba este meu coração em ecos que se estendem sobre ponteiros que esfolam. Ponteiros de fado. Meu Deus, eu devo ser sílaba decomposta da palavra que não escrevo. Segundo a segundo, o instante imediatamente a seguir a este vem até nós. Que instante é este? Tic-tac – Alexandra, espera por mim – peço-te. Espera-me. Digo-te - que eu caio onde já caí, que eu não sei se já me esqueci. Alexandra. Enlaça-me com o teu corpo nesta tua cama e neste teu quarto – vivo, penso que sim. Enrola as tuas pernas nas minhas e dá-me calor de morfina neste torpor da madrugada. Não há ruído que nos chegue, trespasso-te porque me invades – dizes – que era assim que tinha de ser. Alexandra – tu estás. Espera por mim – só mais um pouco. Tic-tac – cada segundo mata um instante e glorifica outros de agora em diante; sensação de queda num pensamento do tamanho do comprimento daqui até àquelas luzes que pairam, às luzes que dançam trémulas na humidade – auréolas – espelhos de olhar. Só vento e passado. Rui – tu não te atires dessa ponte – imploro-te. Reviro-me num segundo tardio, creio não chegar a tempo – Rui – diz-me que ficas. Tic-tac – Alexandra, tu estás aqui e oh meu Deus, desta minha profundidade maldita segredo-te – só mais um pouco. Preciso de vir aqui – é o Rui, chama-me. Grita do alto daquela ponte. É da ponte do rio que te adorna o terraço. Alexandra – o rio que traz nas correntes as tuas raízes. A ponte de nós, ora travessia de sonho em final de tarde dos pés descalços à beira mar, ora projecção de negrume, infinito, dor e desespero. Rui – não saltes. Onde está a tua razão, Rui? Não ta vejo - serei eu incauto - então. Onde está a tua razão, permites-me amigo? Já não ta vejo por detrás desse teu olhar azul, contudo, e perdoa-me pelo meu talvez esgarrar - triste e vazio. Triste quase todos os dias – lá no secundário – lembras-te, Rui? Ouve-me Deus que não ouves - Rui. O teu olhar perdido e distante que se espraia na ilusão da liberdade. Rui – não te atires. Lá no secundário, onde os garotos se riem das tuas sapatilhas rotas e gastas, a mochila remendada, livros sujos de páginas rasgadas, que em tempos eram do teu irmão, e juro-te que já te sinto aqui, juro-te amigo. Alexandra! Por tudo - puxa-me. Já te vejo aqui, meu amigo, por detrás do teu oceano de dor que mais não é do que duas esferas azul céu e mar, teu último canto e recanto onde queres descansar – que mais não são os olhos de menino que quer gritar. De menino que quer chorar. De menino grande na ponte suspensa sobre a morte. Rui – não saltes. Alexandra – espera-me, só mais um pouco. Cada segundo assassina um instante e glorifica tantos outros. Tic-tac…

Posted by Lourenço On 17:00 27 comentários Categories:

Portanto, não tenham medo de ninguém. Tudo o que está coberto vai ser descoberto; e tudo o que está escondido será conhecido.
Mt. 10 : 26


Assassinaram-se as personagens que mais não eram aqueles que não possuíam nada do seu lado para se conhecerem. Assassinaram-se as máscaras que tantas vezes usaram para não se revelarem e para não se identificarem com o que quer que fosse; vazios que se consumiram, mentes que se distorceram - sem lei. Não é tantas vezes assim? Tudo semelhante à mentira?

Linhas - 8.

Posted by Lourenço On 12:26 20 comentários Categories:


Ainda escrevo em papéis que coloco na caixa que me ofereceste. Lembras-te? A caixinha de madeira que fizeste e que depois pintaste à tua maneira – sempre ingénua. Os papeis onde rabisco os assuntos que quero ver resolvidos. Tu disseste – Escreve neles as coisas que desejas que Deus cuide e coloca-os na caixa. Sempre que uma dessas coisas chegar à sua calmaria, tira o papel da caixa e enterra-o num sítio que te seja querido, talvez, junto ao mar – e sorriste.



Tu já não me ouves. Já não sei de ti. Nada. Quis que me amasses. Quis ser amada, e no entanto, vejo-me perdida algures numa fronteira entre dor e desespero – é sempre assim. Já não distingo. Nem sei se fronteira o é, na realidade – não sei se é alguma coisa. Ontem morreu-me um corpo às mãos. Poderia ter sido o meu, não me importaria. Questiono-me infinitas vezes sobre que papel é este o meu onde tu nunca apareces. Se soubesses o quanto te amei e se soubesses o quanto te desejei. Mas tu, tu não eras tu – estavas fora de ti. Também não distinguias, tinhas a desculpa de não saberes se haveria alguma coisa digna de ser seguida – talvez eu? Quis ser amada, quis ser acarinhada, quis que me abraçasses e que do fundo da escuridão te insurgisses para fugirmos os dois. Antes da aurora, antes da chegada da realidade, antes de sentir o cheiro do café que mais não era o cheiro de um dia igual a tantos outros. Dizia-te que um dia acabaríamos assim – separados. Tu dizias que não; por onde andas? E a vida – lembras-te dela? Ainda hoje é o teu nome que repito quando acordo de manhã e quando me recordo desse corpo que me morreu nas mãos, nas minhas mãos impotentes. É de ti que me lembro porque te quero vivo, porque te quero aqui – junto de mim. E porque, impotente também fui quando não evitei a nossa própria morte. É o teu nome que está dentro da caixa – que Deus te cuide, já que eu não fui escolhida para o fazer.